Reino Unido

Reino Unido: a "era da austeridade" começa hoje

por Gonçalo Venâncio, Publicado em 24 de Maio de 2010   
Guilhotina na função pública pode eliminar 300 mil empregos. Osborne apresenta hoje plano radical de cortes na despesa do Governo
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Ao chegar ao seu gabinete no ministério da Economia, o democrata liberal Vince Cable encostou, tanto quanto possível, o seu luxuoso Bentley Flying Spur ministerial, e deu preferência aos transportes públicos. "É um sinal pequeno mas julgo que temos de começar pelo topo", disse Cable citado pelo "The Sunday Times", ao mesmo tempo que proclamava o início da "era da austeridade."

Perante uma dívida a caminhar rapidamente para 86,9% do produto interno bruto e um défice de 156 mil milhões de libras (11% do PIB), George Osborne, o chanceler do Tesouro, prepara-se para apresentar a primeira vaga de cortes draconianos na despesa, antes da apresentação do orçamento de emergência, a 22 de Junho. E, como prometeu Cable, é precisamente pelo topo que a coligação de governo conservadora/democrata liberal, saída das eleições de 6 de Maio, vai começar a desbastar o desperdício governamental. Hoje, Osborne dá a conhecer um pacote de medidas destinadas a emagrecer Whitehall em 6 mil milhões de libras (7 mil milhões de euros) depois de uma auditoria que, ao longo das últimas semanas, detectou muita gordura localizada. Números revelados pelo diário londrino mostram que o governo britânico gasta anualmente 125 milhões de libras (144 milhões de euros) em táxis; 320 milhões em hotéis e 580 milhões em mobiliário de escritório. A despesa com publicidade e marketing chega a 1,7 mil milhões de libras e os institutos, fundações e agências governamentais comem pelo menos 500 milhões de libras anuais aos cofres do Tesouro. Todas estas rubricas estão na mira do plano de eficiência que vai ser desvendado pela coligação. Nas palavras de um torie próximo do gabinete do primeiro-ministro David Cameron, o partido está a cumprir a sua promessa eleitoral: "Durante a campanha dissemos que seríamos capazes de poupar sem afectar os serviços públicos. Isto que vamos anunciar irá decorrer de ganhos de eficiência, fazer mais com menos. Os cidadãos não deverão sentir a diferença." Para já.

Corta, corta, corta. Como explica o Times, o plano de Osborne/Cable irá levantar o véu sobre as medidas inscritas no plano de "Revisão de Despesa", que será conhecido lá mais para Outubro. E nele, nenhum sector do Estado sairá ileso. Nick Clegg já foi ontem preparando o terreno: "A era da abundância em que o dinheiro era atirado ao ar, como fez o governo Labour, acabou. Sim, acabou", disse o vice primeiro-ministro à BBC. "Vamos ter de tomar decisões difíceis, vamos tomar decisões impopulares, vão ser controversas, mas teremos de nos aguentar", conclui.

Nas contas do diário londrino, pelo menos 300 mil burocratas e funcionários públicos têm o lugar em risco. Agentes governamentais, médicos e gestores de saúde, polícias, diplomatas, militares, ninguém vai escapar ao machado de guerra orçamental.

Na sequência de uma série de reuniões ao longo da última semana no gabinete de Vince Cable, foi pedido aos ministérios da Defesa e das Comunidades e Governo Local que reduzam os seus custos em 20%. A aplicação desta meta pode implicar, no caso da defesa, a dispensa de 20 mil pessoas e, no caso das Comunidades, a eliminação de 100 mil empregos. Do lado da receita, podem avançar as privatizações do Royal Mail, serviço postal nacional, e da rede rodoviária e o aumento do IVA para 20%.

As medidas de austeridade começam a ter implicações políticas internas, com David Cameron a enfrentar as primeiras rebeliões na bancada conservadora. A divisão de ministérios (quem recebe o quê) e os cortes anunciados (quem perde o quê) provocaram as primeiras tensões na coligação Lib-Con.


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