Conjuntura

Trichet. "Os governos, com as suas dívidas, é que foram fracos"

Publicado em 22 de Maio de 2010   
À "Spiegel", o líder do BCE, aborda o maior pacote de resgate económico da história da Europa, o papel e a importância dos especuladores e a fraqueza revelada pelos políticos da zona euro
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Ainda não perdeu o sono e está convicto de que a instituição que lidera cumpre bem o seu papel. Só é pena os estados- -membros só agora terem compreendido o que está realmente em causa, critica. Trichet garante que o BCE vai "retirar toda a liquidez" que foi introduzindo nos mercados, sublinhando que não vai tolerar inflação, esse "imposto contra pobres".

Tem dormido nos últimos dias?

Durmo sempre muito bem!

Não tem tido pesadelos?

Não.

Contudo, o mundo financeiro mudou desde o penúltimo fim-de-semana. Os países da zona euro reuniram um pacote de resgate gigante, 700 mil milhões de euros, para salvar da falência Estados titubeantes. Até o BCE abriu mão de princípios e quer comprar títulos de dívida com maus ratings.

Não, não abrimos mão de princípios. A nossa principal função é garantir a estabilidade dos preços. Dito isto, é evidente que, desde Setembro de 2008, nos temos confrontado com a situação mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial, talvez mesmo desde a Grande Guerra. Vivemos tempos francamente dramáticos.

Isso é óbvio pela forma como o senhor e outros se têm comportado.

Em situações como esta, temos de manter a compostura e analisar a situação com a maior lucidez possível. Em Agosto de 2007, fomos a primeira grande instituição a avaliar correctamente o que estava a acontecer nos mercados de capitais devido ao início da turbulência. E reagimos prontamente.

O que aconteceu entre quinta e domingo de há 15 dias [9 de Maio], quando lançaram o maior pacote de resgate financeiro da história da Europa?

Na quinta-feira à tarde e durante todo o dia de sexta assistimos a uma deterioração constante da situação dos mercados financeiros, tanto na Europa como, em consequência disso, a nível mundial. Na sexta-feira, no fecho dos mercados, vários indicadores importantes - spreads dos títulos soberanos, spreads das coberturas de falência (Credit Default Swaps) e a situação do mercado interbancário - assinalavam a disseminação de tensões graves. Comuniquei esse estado de coisas aos chefes de Estado no fim do dia. Foi isso que aconteceu entre a manhã de quinta e a noite de sexta. Estar sempre alerta é essencial quando se têm responsabilidades.

Os investidores de hedge funds e outros gerem presentemente activos no valor total de 2,6 biliões de dólares. Mas mesmo um montante inimaginável desses não deveria ser suficiente para pôr em risco a zona euro. Assim sendo, acha que estamos vulneráveis?

Se fizermos o que temos de fazer, não.

Os especuladores limitam-se a exacerbar problemas existentes?

Há que começar por pôr a casa em ordem. Essas grandes e influentes instituições são um tema de grande importância que deve ser abordado a nível mundial.

Então, o que corria perigo? Só os bancos? O euro? A UE?

Estamos agora a viver tensões graves que surgem na esteira dos acontecimentos de 2007-2008. Nessa altura, as instituições privadas e os mercados estavam prestes a entrar em ruptura total. Isso levou a um apoio financeiro muito decidido e abrangente por parte dos governos. E agora vemos a assinatura de alguns governos posta em causa. Isso é um problema para quase todos os países industrializados. No G7, as economias têm um défice na ordem dos 10% do PIB. Na zona euro, no conjunto, é em média de 7% do PIB. Nesta situação de défices extremamente elevados em todo o mundo, os mercados dirigiram a mira ao elo fraco: a Grécia. Tendo em conta também o facto de as estatísticas gregas terem estado incorrectas num dado momento, a pressão dos mercados concentrou-se aí e foi necessário criar um programa drástico de ajustamento.

Ao que parece, os ataques não eram só à Grécia. Portugal vinha a seguir...

No mercado, há sempre o perigo do contágio - como o que vimos entre as instituições privadas em 2008. E pode acontecer rapidamente. Às vezes é uma questão de meio dia. Isto é um problema para o mundo industrializado no conjunto.

Alegadamente, até a Ásia perdeu confiança no euro. E são actores-chave.

Uma divisa que mantém o seu valor inteiramente em linha com a sua definição de estabilidade dos preços - com um taxa anual de inflação próxima de 2% - durante quase 12 anos inspira confiança.

No caso da Grécia, o debate em Berlim há semanas dizia respeito ao fornecimento de ajuda no valor de 3 mil milhões de euros. Agora fala-se de mais. Deveu-se à hesitação alemã?

A história não acaba aí. O governo grego levou demasiado tempo a reconhecer a extensão do problema e a tomar medidas. Nós, BCE, fomos claros nos nossos alertas no sentido de o governo agir rapidamente. Em tempos de grandes dificuldades, é essencial agir decididamente.

Os mercados financeiros não se impressionaram com o primeiro pacote de resgate preparado para a Grécia.

Como referi, a situação começou a piorar na tarde de quinta [6 de Maio] e durante a sexta seguinte. Vários mercados não estavam já a funcionar correctamente; a situação tinha contornos parecidos com a que foi criada pelo Lehman Brothers.

O ataque ao euro não foi mais dramático para a Europa do que o Lehman?

Não é um ataque ao euro. É uma questão que tem que ver com as assinaturas dos Estados e, logo, com a estabilidade da zona euro. Torna-se claro que a principal responsabilidade dos europeus é tomar medidas certas para combater as actuais e graves tensões que surgiram na Europa.

Durante a crise, o conselho de governadores do BCE decidiu, pela primeira vez, comprar títulos soberanos de países da UE em dificuldades, quebrando um tabu. Axel Weber, presidente do banco central alemão, o seu congénere holandês e o economista-chefe do BCE, Jürgen Stark, votaram contra. É raro tanta dissidência.

Nunca me pronuncio sobre posições individuais. As nossas medidas são explicitamente autorizadas pelo tratado (da UE). Não estamos a embarcar num facilitismo quantitativo; estamos a ajudar alguns segmentos do mercado a funcionarem com mais normalidade. E, como disse, iremos reabsorver toda a liquidez adicional que vamos fornecer no nosso Programa dos Mercados de Títulos.

O público ficou com a impressão de que os governos pressionaram o BCE.

Isso é ridículo! Tomamos as nossas decisões de maneira independente e temos um historial de assumirmos posições contrárias às dos chefes de Estado: em 2004, ao recusarmos baixar as taxas; em 2005, ao aumentá-las contra o desejo deles; e ao longo de todo o período, ao defendermos ferozmente o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), e até a defendê-lo contra o chanceler alemão da altura. Quem revelou fraqueza ao longo dos últimos meses? Não foi o BCE, certamente. Os governos, com o seu alto nível de endividamento, foram fracos. Teria eu sido fraco quando expliquei a todos os chefes de grupo parlamentar do Bundestag (parlamento federal alemão) por que razão era importante decidir rapidamente? Ou quando informei os chefes de Estado, com toda a independência, de que a situação era séria e que eles tinham de estar à altura das responsabilidades?

Até agora, o BCE tem sido forte e independente porque rejeitou desejos da classe política, que queria baixar as taxas ou empreender uma política monetária expansionista. Mas agora consentiu, pela primeira vez.

Não demos consentimento. Tomamos as nossas decisões tendo em conta a nossa avaliação da situação e não "recomendações" de governos, mercados ou parceiros sociais. Decidimos, em 9 de Agosto de 2007, injectar 95 mil milhões de liquidez em poucas horas porque o mercado monetário estava enfraquecido. E poderia dar muitos exemplos semelhantes. Como já disse, se acaso foi exercida influência, ela terá sido no sentido oposto, do BCE para os governos. E deixe-me dizer-lhe que quem assumiu responsabilidades muito diferentes foram os que não aplicaram o espírito e a letra do PEC. E quem não exerceu como devia a fiscalização que pedimos constantemente para exercer.

Numa entrevista há meses, Stark disse que o BCE não podia comprar títulos soberanos. Quem tem razão?

Isso é explicitamente autorizado no tratado. Nos últimos 11 anos garantimos a estabilidade de preços na Europa e atingimos o nosso objectivo de manter a inflação a níveis abaixo, mas próximos, dos 2%. Temos feito um bom trabalho, semelhante ao que os melhores bancos centrais europeus estavam a fazer antes do euro. Quem acredita - ou, pior ainda, afirma - que iremos tolerar inflação no futuro está a cometer um erro grave. O BCE não hesitou em aumentar as taxas em Julho de 2008, num período de turbulência, para garantir a estabilidade. Ao tempo, fomos criticados. Esta é bem uma medida da nossa determinação inflexível.

Os alemães reagiram mal porque o Bundesbank sempre recusou, mesmo em crises, comprar títulos soberanos. Compreende a preocupação alemã?

Compreendo inteiramente a sensibilidade particular dos meus amigos alemães. Mas factos são factos: a inflação na Alemanha nunca foi tão baixa como tem sido nos últimos 11 anos. Os cidadãos alemães vêem bem que o euro tem sido um garante de segurança a longo prazo.

Mas as pessoas estão preocupadas com o futuro. Temem que a inflação regresse e que as poupanças percam valor.

A dada altura, o Banco de Inglaterra e a Reserva Federal decidiram embarcar numa "flexibilidade quantitativa", através da compra de títulos de dívida pública de maneira a injectar a liquidez possível no mercado. O que estamos a fazer neste momento é diferente. Vamos retirar toda a liquidez adicional que introduzimos.

Os alemães temem que o seu governo se esteja a tornar o pagador da UE.

Compreendo o receio que os alemães têm da inflação e a ansiedade quanto ao seu orçamento e à sua contribuição para a Europa. Em França, já me chamaram "Ayatollah du Franc-fort" ...

... que tem dois significados: Frankfurt e euro forte ...

... porque sou partidário de fortes políticas cambiais. A inflação é destrutiva para as sociedades e a democracia. A inflação é um imposto dirigido aos pobres e aos fracos. Estou firmemente convencido disso.

Os políticos têm sempre a tentação de gastarem mais dinheiro do que têm. A inflação ajuda-os a reduzirem a dívida.

Claro que agora temos de exigir aos governos programas de ajustamento abrangentes e os chefes de Estado comprometeram-se a acelerar a consolidação dos orçamentos. Sabem, agora, o que está em jogo.

Não seria bom se um país como a Grécia pudesse sair da zona euro?

Está fora de questão. Se um país adere à zona euro, partilha um destino comum com os restantes membros. É necessário um salto quântico na governação da zona euro. É preciso que haja grandes melhorias para prevenir maus comportamentos, para assegurar a aplicação das recomendações feitas por "pares" e para garantir sanções reais e efectivas em incumprimento (do PEC). O BCE apela a profundas alterações, que explicarei no grupo de trabalho presidido por van Rompuy (líder do Conselho Europeu).

Quem lhe garante que os políticos não irão agora servir-se do BCE como máquina de imprimir dinheiro?

Repito que iremos retirar toda a liquidez adicional que estamos agora a introduzir. A nossa visão da política monetária não mudou. Nunca, por um minuto, hesitámos em tomar as decisões necessárias para garantir a estabilidade dos preços, ignorando todos os grupos de pressão.

Mas também os bancos estão a ser mimados pelo BCE. Devido às medidas ditas não convencionais, tornaram de novo possível aos bancos contraírem empréstimos de milhares de milhões. Ao fazê-lo, não estão a distribuir ainda mais dinheiro de jogo aos mercados?

Mais uma vez afirmo que fazemos o que, em toda a consciência, acreditamos ter de fazer para garantir a estabilidade no médio prazo. Não levamos em conta lóbis. Damos liquidez aos bancos para que possam financiar a economia real.

Cometeu erros nas últimas semanas?

A História julgará isso.

Exclusivo i

Der Spiegel



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