Entrevista

Lena d'Água "Nunca quis ser cantora, nunca gostei da fama"

por Joana Stichini Vilela, Publicado em 22 de Maio de 2010   
Depois do sucesso, dos nove anos de dependência da heroína e "de muitas tragédias", diz estar finalmente feliz
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A casa de Lena d'Água cheira a rosas. Vêm do jardim "dos ingleses", ali ao lado, explica com um entusiasmo de miúda enquanto nos dá a cheirar uma das cinco jarras perfumadas. Há quase três anos que se mudou para uma aldeia perto do Bombarral. A sex-symbol dos anos 80, intérprete de êxitos pop como "Olhó Robô" e "Dou-te Um Doce", quis fugir da confusão de Lisboa. Aos 53 anos, vive com três cães e seis gatos que trata como filhos numa casa de bonecas. Conversamos rodeadas de vinis, fotos e troféus do pai, o antigo capitão do Benfica José Águas. Lá fora, só o silêncio. E a rafeira Loira, que quer atenção. Ao longo de cinco horas, com uma memória tão prodigiosa como anárquica, Helena Águas falou sem parar sobre a família, a fama, as drogas e "uma essa outra que também sou eu, que me perseguiu a vida toda". Lena d'Água.

O nome Lena d'Água tornou-se muito famoso. Mas Helena Águas também trazia um grande peso.

Pois trazia. Nasci quando o meu pai era superfamoso. Ainda não tinha dois anos fui capa de uma revista. Dizem que eu saía ao meu pai. Era um homem maravilhoso.

Contemporâneo do Eusébio...

Jogaram dois anos juntos. O Eusébio era um miúdo e tratava-o por senhor. "Senhor Águas, posso marcar o livre?" Numa final da Taça dos Campeões com o Real Madrid estávamos a perder por 2-0. Há um livre directo, o Eusébio chega ao pé do meu pai e diz: "Senhor Águas, sinto que posso marcar." E o senhor Águas disse que sim. Ganhámos por 5-3.

Viviam a carreira do vosso pai de uma forma muito intensa?

Éramos muito pequenos. Eu sou a mais velha. Os meninos mal se lembram.

Os meninos são...

A Cristina e o Rui. Eu sou de 1956, a Cristina de 57 e o Rui de 60. Era uma escadinha. Depois de se despedir do Benfica, o meu pai ainda jogou um ano no estrangeiro, em Viena. Fomos todos. Eu tinha sete anos. Lembro-me de imensas coisas: a neve, os eléctricos vermelhos com três carruagens, a salamandra.

Viviam à volta do futebol.

Nós só nascemos porque o meu pai era um miúdo com imenso jeito para jogar à bola. Ele nasceu em Angola. Aos três anos ficou órfão de pai. Com 19, em Setembro de 1950, veio jogar para o Benfica. No mês seguinte dá-se o casamento da irmã mais velha da minha mãe. Era dia de jogo do Benfica. O meu avô Lopes e os noivos deixam os convidados pendurados no copo d'água e vão ao estádio num instantinho. O Benfica ganhou ao Sporting da Covilhã. No final o meu avô vai convidar alguns jogadores para irem tomar um copo ao casamento, incluindo o Águas, que era a coqueluche.

Mas conheciam-se?

Nada. O meu avô era benfiquista ferrenho, daqueles mesmo de coração. Foi nesse dia que o meu pai conheceu a minha mãe, que era linda de morrer. Nós não somos malfeitinhos, mas o meu pai e a minha mãe eram qualquer coisa. Namoraram cinco anos. Casaram-se em 1955, no 15 de Agosto. Nasci passados 10 meses, em Junho de 56.

Como era a sua relação com ele?

Era maravilhosa. Tínhamos coisas muito parecidas. Até as mãos iguais. Fazia impressão. Claro que depois houve a fase da adolescência...

Ele era muito rigoroso?

Ui... Com o Rui era tudo à vontade, com as raparigas... Foi uma fase um bocadinho chata. Ainda levei um tabefe, aos 17 anos. Cheguei a casa tarde, às 11 da noite. Tinha estado em casa do meu namorado, o primeiro a sério. Eu morava no Bairro de Santa Cruz, onde todas as famílias tinham pelo menos dois filhos e um quintalzinho. Vinha pela rua com um amigo a assobiar a [música do filme] "A Ponte do Rio Kwai" [assobia]. O meu pai está na esquina à espera, vê-nos, acha que é o meu namorado e, furibundo, dá-me um estaladão.

Na altura já queria ser cantora?

Nunca quis ser cantora, nunca quis ser música. Lá em casa ouvia-se muita música. Estes eram discos que o meu pai comprava quando andava na estrada com o Benfica: Nat King Cole, que ele adorava, Glen Miller, Count Basie.

Então queria ser o quê?

Queria estudar Sociologia, que era considerado uma coisa comunista. Entrei na faculdade, em Economia, em 73. Ao fim de seis meses veio o 25 de Abril e começaram as passagens administrativas. Não era para mim.

Quando percebeu que sabia cantar?

Reparei que tinha boa voz na igreja. Dei catequese e durante a missa - adorava cantar na missa - reparei que quando lançava a voz havia sempre umas cabeças a olharem para trás. Comecei a cantar mais baixinho. Era supertímida. A guitarra veio quando acabei o quinto ano, actual nono. Mas não gostava da minha voz. No liceu, no orfeão, queria sempre ficar na segunda voz. Nunca consegui. Ficava sempre na primeira. Em 75 apaixono-me por aquele que foi o meu primeiro marido [Ramiro Martins].

Tinha 19 anos...

E ele 21. Conhecemo- -nos na terça-feira de Carnaval, numa festa do parque de campismo de Monsanto. Eu estava tristíssima porque o meu melhor amigo, o Manuel, já estava com problemas com heroína. Morreu pouco depois, com 18 anos. Às tantas estou a chorar na festa de Carnaval e o Ramiro, que estava lá com os amigos da Amadora, pára ao pé de mim. Eu olho para ele - ele era muito bonito, cabelos compridos, uns olhos lindos - e pergunto, "qual é o teu signo?" [larga uma gargalhada]. E ele diz, "sou leão e nasci nas montanhas". Apaixonei-me. Deixei de tomar a pílula porque achava que era negar aquele amor. Casámos em Setembro e a Sara nasceu em Dezembro. Casámos os três. Muitos anos depois cheguei a querer, mas nunca mais engravidei. Ao fim de três anos aquilo começou a dar mal. Foi o máximo que consegui estar com alguém.

Viviam de quê?

Começámos por viver em casa dos meus pais. O pai do Ramiro tinha um minimercado e o Ramiro ajudava-o. Tínhamos tudo o que precisávamos para comer.

Como reagiram os seus pais à gravidez?

A minha irmã já tinha sido mãe, mas não de propósito. Casou-se aos 17 anos. Por isso já não foi o primeiro embate. Nesse ano entrei no curso do Magistério Primário e fiz o curso ao mesmo tempo que fazia concertos com os Beatnicks. O Ramiro era o viola baixo. Éramos miúdos. Se aos 30, 40 as relações já são tão difíceis, então com 20...

A primeira vez que subiu ao palco foi com os Beatnicks?

Foi. Em 76!

Era uma vida de borgas e rock'n'roll?

Borga não muito, porque eu tinha uma bebé de meses. Fazíamos covers dos Rolling Stones, Yes, Genesis. E depois tínhamos uma parte de rock progressivo, sinfónico, com temas muito longos. Comecei por ir assistir aos ensaios. Aquilo soava bem e eles disseram: "Tu vais mas é começar a cantar connosco." O vocalista era o Tó Leal, que na altura tinha o cabelo comprido e parecia uma miúda.

Havia muito álcool e drogas?

No nosso caso, havia montes de ganzas. Álcool não. Quanto muito um copo de vinho.

E como aparecem os Salada de Frutas?

Separei-me no Carnaval de 78. Mas nessa altura já fazia coros e jingles. Tenho um muito famoso, o do Harpic Líquido: [canta] "Harpic líquido superconcentrado, pchhh pchhhh pchhh, é um jacto que de facto chega a todo o lado, limpa e desinfecta num instante, WC brilhante, pchhh pchhh pchhh, Harpic líquido!" Fiz mais de 100. Tornei-me independente. Comprei uma cama, uma estante, roupas para a Sara... Também estou nos coros do "Eu Tenho Dois Amores".

Como é que esse encontro aconteceu?

Eu fazia sessões de estúdio. Também fiz coros no "Mocidade, Mocidade", do António Calvário, no Festival da Canção em Paris... Foi nessas gravações que conheci o Luís Pedro [Fonseca] e o Zé [da Ponte] com quem fundei os Salada de Frutas. Entretanto o Luís Pedro apaixonou--se por mim. O primeiro disco aparece em 80, mas o grande sucesso foi o single do "Olhó Robô". Foi uma loucura. Eu estava muito gira na altura. Entrou directo para o primeiro lugar do top.

A relação com o "Olhó Robô" é de amor-ódio?

Como eu fui dispensada dos Salada de Frutas - três deles viraram-se contra mim, resolveram "prescindir da cantora", como diziam, e fizeram uma banda só de machos, cheia de bigodes, chamada Salada de Frutas - nunca mais voltei a tocar. Em 1999, 2000, quando andei a tocar o reportório da Billy Holliday com uma banda de jazz, havia sempre um engraçadinho que começava, "Olho Robô". Só ao fim destes anos vou voltar a tocar.

O que está a fazer na música?

Estou a preparar isto com o Tahina: êxitos dos anos 80 só com voz e guitarra.

Os seus anos dourados...

Dourados... Não gosto de fama. Nada. Se eu não tivesse sabido o que era ser filha do Águas...

Não era bom ter uma vida de estrela?

Isso é tudo treta. Para já foi depois do 25 de Abril e ganhávamos todos o mesmo. Os contratos eram feitos por causa da Lena d'Água e eu armada em tonta a dividir tudo por igual. Ingenuidade!

Nem nos anos 80 ganhou dinheiro?

Só em 1985 consegui comprar um apartamento, porque aceitei ir ao Canadá sem levar os meus músicos. Numa semana ganhei 600 e tal contos, que era imenso dinheiro. Dei entrada para um apartamento em Carnide e fiquei só com uma prestação.

O que achavam os seus pais de ter uma filha cantora?

No início acharam interessante. Depois ficaram preocupados. E mais tarde ficaram preocupados mesmo, no final dos anos 80, quando conheço uma pessoa que me apresenta àquela maldita droga [heroína].

Antes não tomava nada?

Fumava umas ganzas de vez em quando. Coca também experimentei, mas não gostava. Fui vegetariana durante muitos anos. Comia arroz integral, umas azeitonas, queijos. Tinha uma vida bastante saudável. E depois há o tal encontro que por pouco não foi fatal.

Mas porque começou a usar heroína? Andava deprimida?

Não, nada disso. Quis experimentar a droga que tinha matado o meu amigo Manuel. Tinha 33 anos. Achava que controlava. E quis experimentar. Fumei. Passados 15 dias pensas: "E se fumasse outra vez?" Não te dás conta da cena em que te estás a meter. Que horror: estou a falar disto e vem-me o sabor à boca...

Quando tempo durou a dependência?

Nove. Entre a primeira e a última. Ao fim de um ano estava a tentar largar. É muito difícil. Costumo dizer que fumei o meu apartamento.

No meio disto tudo, a sua filha vivia consigo?

Vivia. Tinha 14 anos. Foi a primeira pessoa com quem falei. Disse-lhe: "Estamos com um problema." Foi uma odisseia. A dada altura, esse meu namorado levou--me o carro, andou a trocar cheques meus. Até que em 93 mudei a fechadura da casa e o pus a andar. Depois apaixonei-me por um outro amigo meu, que também fumava. Apoiávamo-nos um ao outro. Pouco depois ele soube que tinha sida. Durante um ano e dois meses fui mãe, irmã, amor, enfermeira. Ele morreu em 95 e o pior veio depois. Ia todos os dias ao Casal Ventoso. Ao mesmo tempo andava com as Canções do Século [com Rita Guerra e Helena Vieira], sempre linda, magra, vestida pelo José Carlos. Mais tarde apaixonei-me por uma pessoa que não tinha nada a ver com isto e que me ajudou muito.

E a sua família no meio disto tudo?

No dia em que contei à minha filha contei aos meus pais. Foi logo no princípio. Não queria fazer segredo. Coitadinhos... Foi terrível. Felizmente consegui sair a tempo de lhes dar todo o apoio quando o meu pai ficou com cancro da mama, em 2000.

Onde foi buscar a força?

Houve uma enfermeira muito importante. Não havia metadona em Lisboa. De 10 em 10 dias eu vinha a Leiria buscar a metadona. E há um dia em que essa enfermeira me diz: "Ó Lena, quando é que se deixa de tretas e marca uma desintoxicação?" Tinha razão. Depois é saber gerir as coisas, voltar à vida: ir ao cinema, à praia... Com a heroína não se brinca, não se experimenta. Porque tens os teus pais a sofrer horrores, a tua filha a sofrer horrores...

Quem era mãe de quem?

A minha filha. Tem sido quase sempre. Ainda hoje está sempre a ralhar comigo: "Ó mãe, olha esse cabelo, ó mãe, essa roupa." É um anjo.

E os seus irmãos?

Sempre fomos muito distantes. Eu era a mais velha, a mandona, a bucha, depois passei a bruxa. Eles juntavam-se contra mim. Desde que os meus pais morreram que cada um foi à sua vida. "Irmãos são estes que estão aqui comigo à mesa", como dizia Jesus Cristo, uma das coisas que me ficaram dos tempos em que dava catequese.

Alguma vez imaginou que ia ter uma vida assim?

As coisas aconteceram sempre tão naturalmente... Alguma vez eu sonhei ser cantora? Depois dos 50 tenho-me dado mais a conhecer que em toda a minha vida. Fui sempre amada ou detestada, e pelos motivos errados, que eram normalmente o aspecto físico. Tinha umas pernas lindas e usava umas mini-saias, mas cantava o "Nuclear, não obrigado", o "Demagogia". Porque é que ficaram sempre com a ideia da gaja boa?!

Mas devia ter imensos pretendentes...

Os homens tinham medo de mim. Eu toda apaixonada - quantas vezes me apaixonei na vida! - e eles nunca acreditavam. Em 85 tive um namoro muito giro com o Pedro Paixão, o escritor.

Como é que se conheceram?

Numa terça-feira de Carnaval. Os meus pais tinham levado a miúda para o Algarve e eu estava na casa onde a minha irmã morava na altura. Depois do jantar lembrei-me de ligar a um amigo de um amigo. E quem atende é o Pedro, que morava lá. Tinha sido abandonado há uns dias pela rapariga por quem tinha uma adoração mas que o deixou por um professor de Estatística mais velho - de Estatística! Tínhamos a mesma idade, perto dos 30. Apaixonei-me imediatamente.

Pelo telefone?

Quase. Eu estava sem ninguém. A maior parte da minha vida foi sem ninguém. Uma data de namoros, mas se começava a dar mal acabava. Depois de uma hora ao telefone eu digo-lhe: "Desculpa mas vou ter contigo." Só pensava: "Sou doida. Vou ter com um desconhecido." Combinámos na antiga estação de comboios de Benfica. Eu ia com o meu chapéu de flanela, botas, casaquinho de ganga... o meu género, e chego lá e vejo um senhor de sobretudo, com óculos de aros pretos, sapatos impecavelmente engraxados, um perfume muito bom, muito bem escolhido. Pensei: "És tu então?" Éramos os únicos na estação. Dormimos juntos nessa noite. E eu apaixonei-me logo por ele. Ele escreveu uma data de episódios dessa relação nos livros. E ele sempre apaixonado pela outra.

Isso não a incomodava?

Eu soube isso logo no início. E até vê-lo sofrer me dava uma ternura muito grande. Nunca pensei conseguir que ele deixasse de amar aquela rapariga. No entanto, tivemos uma relação queridíssima, em que ele me tratou melhor que qualquer dos namorados que tive. Naqueles anos eu era superfamosa. Tínhamos de andar sempre meio refundidos para não sermos invadidos por, como ele escreveu, "bando de adolescentes aos gritos". Aquilo por que eu passei com o meu pai, passados 20 anos passei por minha causa. E passados mais uns anitos era tudo aos gritos por causa do meu irmão.

A relação durou quanto tempo?

Foi esse ano de 85. Ele lá se debatia com a doença dele (doença bipolar). Tinha fases de estar completamente à toa, de os amigos me ligarem a dizer: "Lena, vem cá ter, porque o Pedro está passado." Ele tinha uma viola acústica e eu sempre toquei bastante mal, mas sei tocar umas cançõezinhas. Sentou-se logo na cama: "Ai que bom, ai que bom." Estava todo nu, só com um lençol. Adoro o Pedro. Hoje estou solteiríssima, mas continuo com pretendentes como se fosse magríssima e novíssima. Um de 30 anos, outro, no ano passado, de 90. Não há nada como deve ser...

Se fosse como deve ser estava disposta a isso?

Sim...

É como canta no "Sempre Que o Amor Me Quiser"?

Essa canção esteve para ser escrita pelo Chico Buarque. É o meu tema mais importante.

Gosta de falar. Não se sente muito sozinha aqui?

Quando vou ao supermercado falo. No café falo. Aquela história da confissão católica, eu faço isso todos os dias. Conto tudo.

Vive do quê?

Nem sei... No ano passado não ganhei 2 mil euros. Tenho amigos que me emprestam dinheiro. Como não sou autora das músicas, ganho muito pouco quando as usam. Tentei dar aulas de Música na escola primária, mas não aguentei.

As pessoas acham que por ser filha de um jogador de futebol famoso e por ter tido muito sucesso tem dinheiro.

No tempo do meu pai os jogadores de futebol não ganhavam nada de especial. Nós íamos acampar. Os meus pais sempre alugaram uns quartinhos a estudantes lá em casa. Os anos em que eu ganhei mais dinheiro foram os anos da heroína, com as Canções do Século.

Sente que ficou alguma coisa por fazer na sua carreira?

Não. Só não tinha noção de que era tão difícil voltar. Recuso-me a fazer playbacks. Por isso deixei de ir à TV. E se desapareces da TV morres. Eu nunca parei. Dei concertos no Hot [Clube], no Maxime. A ganhar poucochinho. Mas nunca parei.

E agora, gostava de ser avó?

Então não? Adorava. Podia ser já.


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