Entrevista

José Sócrates: "Eu não peço desculpas por cumprir o meu dever"

Publicado em 19 de Maio de 2010   
Na entrevista de ontem à RTP, José Sócrates disse que as medidas de austeridade são "imprescindíveis"
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"O mundo mudou em três semanas e de que forma!" - este foi o tom que dominou toda a entrevista de José Sócrates ontem à noite à RTP. O primeiro-ministro insistiu várias vezes que estamos perante uma crise europeia, um ataque especulativo contra todos os países europeus, contra a zona euro - e não só contra Portugal. Um "ataque especulativo e completamente inesperado" que criou uma "desconfiança acrescida em relação às dívidas soberanas dos países da zona euro".

Foi isso - e apenas isso, a defesa de Portugal e do "projecto europeu" - que o terá levado a quebrar a promessa eleitoral de não aumentar os impostos. Também por isso mesmo, ao contrário de Pedro Passos Coelho, não pede desculpas pelas medidas adoptadas no novo pacote de austeridade. "É um esforço colectivo, nacional, distribuído com equilíbrio por todos." "Eu não peço desculpas por cumprir o meu dever", respondeu Sócrates às perguntas insistentes de Judite de Sousa e José Alberto Carvalho.

"As medidas que estamos a tomar são medidas absolutamente necessárias e imprescindíveis", insistiu o primeiro-ministro. "Cada um fala por si", disse ainda em relação ao pedido de desculpas do parceiro de acordo, Passos Coelho. "Devia pedir desculpas se não fizesse nada", acrescentou José Sócrates.

Judite de Sousa insistiu que, ainda no início de Maio, José Sócrates tinha garantido no Parlamento que o governo não iria aumentar os impostos, ao contrário do que aconteceu apenas duas semanas depois, com o novo pacote de austeridade. Sócrates reconheceu ser verdade mas a razão, argumentou, esteve na mudança europeia e mundial. "Fiz tudo para não aumentar os impostos", garantiu o primeiro-ministro.

"Só temos o acordo do PSD até finais de 2011", disse Sócrates, respondendo às diferenças entre as suas declarações e as do ministro das Finanças, a propósito dos prazos para a aplicação do actual pacote de austeridade, incluindo os impostos. O primeiro-ministro defende que disse exactamente o mesmo que Teixeira dos Santos, ou seja, que as medidas são para se manter enquanto for necessário.

O aumento dos impostos são para "defender a economia europeia e a zona euro" - e não apenas Portugal, insistiu. Mas Sócrates gostaria de poder limitar o pacote até ao final de 2011. "Eu fiz o meu melhor para fazer um Programa de Estabilidade e Crescimento em que não fosse necessário aumentar os impostos" - repetiu o líder do PS. "Este documento foi saudado por todos", acrescentou. O que se trata aqui, afirmou, "foi um ataque sistémico a toda a Europa".

"Aquela sexta-feira da cimeira europeia foi um momento histórico", adiantou, sublinhando que "ninguém na Europa e no mundo antecipou" o que aconteceu nas últimas três semanas de Maio. "Nem o governo português nem nenhum governo europeu", afirmou Sócrates. "Acha que a chanceler Merkel mentiu?" - perguntou. "Foram atacados todos os países" e "a Europa reagiu em conjunto".

Sócrates não teme que os portugueses não compreendam que se faça o TGV e outras grandes obras enquanto se apresenta um pacote de austeridade, incluindo o aumento de impostos. "Não podemos gerir um país com base no medo."

Já no fim da entrevista, garantiu que nada está decidido sobre o apoio do PS a Manuel Alegre nas presidenciais. "Nada do que virá será maior que a minha alma", terminou Sócrates, citando Fernando Pessoa para responder à pergunta sobre se temia ter de prestar mais declarações à comissão de inquérito sobre o caso PT/TVI. "Nada temo."


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