O Facebook não matou a privacidade. Nós é que deixámos

por Ana Rita Guerra, Publicado em 18 de Maio de 2010   
Rede social adicionou novas opções de protecção, mas continua a ser criticada
Opções
a- / a+
No próximo dia 6 de Junho, haverá um "apagão" de utilizadores no Facebook, que está a ser publicitado via FacebookProtest.com e servirá para protestar contra as recentes mudanças. "A nossa privacidade não é um privilégio e não está à venda!", escrevem os organizadores do protesto, que até agora tem 1212 seguidores no Twitter e 1237 fãs no... Facebook.

A iniciativa é algo bizarra, até porque o Facebook é apenas uma rede social e só lá está quem quer. Mas a sua influência tem sido tão grande no último par de anos que cada vez que a empresa faz alguma mudança há pessoas a irem para a rua protestar. Há alguns meses, o CEO Mark Zuckerberg causou polémica ao dizer que "a era da privacidade acabou" e que as pessoas não querem realmente essa privacidade que defendem. Se quisessem, porque estariam num site onde é suposto exporem-se ao mundo?

Bom, para muitos utilizadores o Facebook já é um vício. Abriram clínicas em vários países para tratar esta adição e já há um site dedicado a quem quer "deixar" o vício, tal como o QuitFacebookDay. A página incita os facebookers frustrados a inscreverem-se e a fazerem uma preparação para a ressaca, tal como fariam para deixar de fumar ou de beber. O mais incrível? Já se inscreveram 2635 utilizadores em poucos dias. O dia da libertação está marcado para 31 de Maio.

"Os efeitos cumulativos do que o Facebook faz agora não vão ter bons resultados no futuro, e nós preocupamo-nos com o futuro da internet, que seja um sítio aberto, seguro e humano", escrevem os fundadores do QuitFacebookDay, Joseph Dee e Matthew Milan.

No centro da polémica estão mudanças feitas no final do ano passado, que tornaram todos os perfis públicos por defeito. Para se protegerem, os utilizadores devem seleccionar uma a uma as opções de privacidade, que até estão bastante elaboradas. O problema é que a maioria dos utilizadores nunca mexe nas definições de partida. Neste momento, para se atingir o grau máximo de protecção, é preciso activar nada menos que 50 definições e 170 opções. Além disso, todos os "Gosto" estão ligados a grupos e são publicamente visíveis. Se não quer que saibam que vai faltar ao trabalho para ir ver um concerto, o melhor é deixar de lado o botão de "Gosto" ou "Vou" no respectivo evento. O Facebook está a fechar cada vez mais acordos com outros sites e a ligação dos seus utilizadores é visível (por exemplo, se tiver uma conta na rádio online Pandora).

O texto que descreve a política de privacidade do Facebook tem mais 1287 palavras que a Constituição dos Estados Unidos e é agora cinco vezes maior do que era no início. O que se passa pela cabeça de Mark Zuckerberg para fazer estas mudanças tem sido alvo de ampla discussão, com muitos utilizadores a desconfiarem que a empresa ou vende estas informações ou as usa para fins comerciais. No fundo, é tudo financiado pela publicidade, e quanto maior a riqueza do que as marcas sabem sobre os consumidores, através do Facebook, mais facilmente conseguirão chegar até elas.

Crimes aumentam A preocupação dos grupos civis com a privacidade no Facebook tem sido acompanhada por repetidos avisos das autoridades policiais, um pouco por todo o lado. Há já dezenas de homicídios que aconteceram através da rede, quase sempre envolvendo adolescentes e/ou casais. O último caso aconteceu este fim-de-semana na Austrália, com uma adolescente de 18 anos, que foi atraída para um bosque com a promessa de um emprego na área da protecção animal e acabou assassinada. O seu perfil tinha todo o tipo de referências ao amor pelos animais e ao sonho de ter um emprego nessa área.

Além do cancelamento de algumas contas importantes, tais como a do director de anti-spam da Google, Matt Cutts, ou do fundador do Gizmodo e Engadget, Peter Rojas, tanto o congresso norte- -americano como responsáveis da Comissão Europeia expressaram a sua preocupação com a rede social. A resposta, mais uma, veio na semana passada: o Facebook adicionou novas funcionalidades para ajudar a proteger os utilizadores. A principal consiste em definir quais os aparelhos com que os utilizadores querem aceder ao site (portátil, computador do trabalho, telemóvel). Se houver tentativas de aceder num equipamento não autorizado, o utilizador receberá um alerta. No entanto, a questão mantém-se: quando é que a parte social da rede é mais importante que a privacidade?


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close