Liga dos Campeões

Real Madrid-Eintracht. A melhor final de sempre da Taça dos Campeões

por Rui Miguel Tovar, Publicado em 18 de Maio de 2010   
Há 60 anos um 7-3 ficou gravado na história. Do futebol. Das competições europeias. De Sir Alex Ferguson. Do Leeds United. E até da RTP
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Diz quem viu que foi a melhor final de sempre da Taça/Liga dos Campeões. Não em emoção, como a de 1999, entre Manchester United e Bayern Munique, resolvida com dois golos na compensação (2-1). Muito menos em mediatismo, como a de há duas épocas, entre Manchester United e Chelsea, iniciada num dia e só terminada no seguinte, com penáltis. Diz quem viu que o Real Madrid-Eintracht Frankfurt de há 60 anos foi um espectáculo que só visto. Diz quem viu... E viram 127 621 adeptos no Hampden Park, em Glasgow. E também viram não sei quantos milhões de telespectadores por essa Europa fora, na primeira final europeia transmitida pelos países da UER (União Europeia de Radiodifusão). E isto do diz quem viu não é conversa da treta. É a mais pura verdade. Porquê?

Porque um dos 127 621 adeptos era um jovem de 19 anos chamado Alex Chapman Ferguson. E ele, agora Sir Alex - do alto dos seus 45 títulos conquistados como treinador, incluindo duas Taças dos Campeões (a emocionante e a mediática de que já aqui falámos) -, diz que viu um "jogo mágico, revolucionário", que os seus olhos "nunca sonharam ver".

E porque um outro adepto de todos aqueles que lotaram o estádio da capital escocesa se chamava Don Revie, então jogador-treinador do Leeds United (retratado como antagonista no filme "Maldito United'), e sugeriu à direcção do seu clube que o equipamento passasse a ser todo branco, igual ao do Real Madrid.

Mas deixemo-nos disso do diz quem viu e passemos à acção, à história propriamente dita. Àqueles 90 minutos de adrenalina, entre o Real Madrid e o Eintracht Frankfurt, cujo resultado final soa a fantasia (7-3), pela quantidade absurda de golos, bem como pela demolidora pontaria de Puskas e Di Stéfano (autores de quatro e três golos, respectivamente), sem esquecer o brilho do sol nesse final de tarde inesquecível (o jogo começou às 19h30 locais), o que implicou hora e meia de futebol sem luz artificial, num relvado impecável, seco e sem uma poça de água, o que muito agradou a Real Madrid e Eintracht Frankfurt. Outros tempos, em que os graus de exigência e satisfação eram bem mais naturais.

O Madrid apresentou-se em Glasgow como tetracampeão europeu, a equipa mais temida do mundo, embora tivesse entrado naquela edição da Taça dos Campeões como detentora do ceptro e não como campeã espanhola (título que coube ao Barcelona pela diferença de dois golos). Já o Frankfurt, que muito se assemelhava ao Benfica pelas cores das camisolas (vermelhas) e respectivo símbolo (águia), também aterrou na Escócia com um cartel impressionante. O seu futebol, de tão espectacular e futurista, merecera o epíteto Fussball-2000 e os escoceses já sabiam ao que iam... Diz quem viu que o Eintracht eliminara o Rangers nas meias--finais com uma facilidade impressionante: 6-1 na RFA e 6-3 em Ibrox.

Em Hampden Park, outro festival de bola. O Eintracht, campeão alemão (pela primeira e única vez), domina os primeiros 20 minutos. Stein atira à barra de Domínguez e Kreiss abre o marcador pouco depois. O Real Madrid reage como se nada tivesse acontecido e os golos sucedem-se. Di Stéfano marca dois, quase de seguida. Puskas exagera e faz quatro em menos de meia hora. O resultado já está feito mas as pessoas não arredam pé do estádio. Naturalmente. Aquilo é como Bobby Charlton sintetiza: "O meu primeiro pensamento foi pensar que tinha sido mentira, um filme fantástico, porque aqueles 22 jogadores fizeram coisas que não são possíveis, não são reais nem humanas." Diz ele, que não viu em directo. Como os portugueses, que só puderam dizer que viram em Setembro, à tarde, quando a RTP, então com três anos de vida, transmitiu o jogo na íntegra - o primeiro de sempre da Taça dos Campeões. Diz quem viu.


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