TEDx

TEDx Lisboa. As ideias que todos gostavam de ter um dia

por Mariana de Araújo Barbosa, Publicado em 17 de Maio de 2010   
Um auditório cheio, gargalhadas e lágrimas. Um sábado soalheiro na universidade: em ideias, entenda-se
Opções
a- / a+
"Eu sou o João Cunha, como já disseram. Pertenço à maior família de sucesso em Portugal, a família Cunha." Comecemos pelo fim. João Cunha, engenheiro informático e humorista, fundou há um ano o projecto "Comédia Sport Club". Sobe ao palco e fica em silêncio. A plateia aplaude, já em contagem decrescente para o final. São 18 horas. A primeira edição do TEDxLisboa está a terminar.

Mas o último orador não se faz rogado e fala das 22 participações anteriores. "Já que toda a gente veio falar de sucesso, eu decidi falar de insucesso. Andámos trinta anos a ser governados por dois partidos, e quando há uma crise, os dois partidos juntam-se", graceja, debaixo de uma chuva de aplausos que se repetem várias vezes durante a intervenção.

"Houve gente a perguntar-me: Onde é que desencantaste este João Cunha?", conta Cristina Marques da Silva, anfitriã do TEDxLisboa com Nicolau Santos. Não é para menos: João Cunha arrancou o maior número de gargalhadas seguidas no auditório da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no fim da tarde de sábado. O consultor informático começou a carreira de humorista há pouco tempo e, por isso, continua a trabalhar como consultor informático. Cristina escolheu um a um os oradores, entre convites e candidaturas. "Por sugestões, através de pesquisas, por ouvir referências aqui e ali. Fiz questão que cada um, dentro da área, tivesse realmente coisas úteis e inspiradoras para as pessoas que aqui viessem", conta.

Maratona de partilha Desde as 9h30 que 700 pessoas encheram o auditório na Cidade Universitária, em Lisboa. No palco, ao lado de Cristina Marques da Silva, esteve o jornalista Nicolau Santos, com quem Cristina partilhou a apresentação das conferências. "Aceitou por carolice", conta, acrescentando que Nicolau "já me disse que para a próxima está cá outra vez".

Esta foi a primeira edição TEDx em Portugal. A criação norte-americana de partilha de ideias de mudança teve casa cheia em Lisboa. "A ideia inicial era partilhar, criar este impulso de que podemos fazer sempre mais, melhorar", conta Cristina. O TED (Tecnologia, Entretenimento e Design) é um evento anual que reúne criadores e pensadores mundiais para partilharem o que mais os anima ou entusiasma. Na versão TEDx, a perspectiva local é o factor determinante para ter a "experiência" TED em qualquer lugar do planeta.

"O tema de mentes abertas, numa altura em que andamos com um capacete de pessimismo na cabeça, foi um lavar de alma", analisa o jornalista. Sem o laço no colarinho que lhe é característico, Nicolau sorri quando questionado sobre se isso terá sido "uma ideia de mudança". "Não, não. Hoje não vim aqui para trabalhar, e ainda por cima sabia que ia dizer poesia no final... por isso. Embora tenha ficado no carro", explica. As perguntas que foi fazendo no decorrer da sessão - com quatro partes - não intimidaram nenhum dos oradores. Vinte e três: desde André Salvada, estudante e poeta, 18 anos, a António Barreto, sociólogo, 67 anos. De gente famosa a ilustres desconhecidos, houve lugar para partilhar ideias de mudança em áreas tão diferentes como educação, política, economia, saúde ou música. "Agora temos novos protagonistas. Aparecem sempre os mesmos nos jornais, a dizerem as mesmas coisas. Portugal é uma sociedade muito rica em termos humanos e muitas delas não têm oportunidade de partilhar o que fazem e os projectos a que se dedicam", refere Nicolau Santos.

Maria Conceição, hospedeira e vencedora do Prémio Mulher do Ano 2009, atribuído pela Emirates Women Magazine do Dubai pelo projecto de solidariedade em Dhaka, fez o discurso mais emocionado e a sua apresentação - uma viagem de avião por Dhaka que deu a conhecer as 600 razões de criação do Dhaka Project - não escapou à crítica de João Cunha. "Maria Conceição: toda a gente sabe que as hospedeiras têm de indicar as saídas de emergência", dizia, a gesticular em cima do palco.

António Barreto não desiludiu e arrancou aplausos à audiência, que vibrou com a comunicação sobre "números e ideias". "Os números são realidade. Os números são conhecimento. Ajudam a ter uma visão comum. E o conhecimento permite mais liberdade", disse o sociólogo, enquanto ensinava os espectadores a utilizarem a base de dados Pordata, obra sua e da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Mas foi Joaquim Casado [ver Perfil], antes do almoço, a verdadeira surpresa do dia. "Mude, mude. Pode mudar", dizia, dirigindo-se à régie onde a organização tratava de mudar os slides da apresentação. Os projectos que desenvolveu na vila da Ericeira ao longo de três mandatos como presidente da Junta de Freguesia comoveram a audiência, que aplaudiu de pé a intervenção.

"Ganhei uns novos heróis pessoais, a começar claramente pelo Sr. Joaquim Casado e a acabar em todos os outros que me inspiraram. Tenho vontade de me juntar à política, concorrer a Presidente da Junta e fazer tudo aquilo que vi!", escreveu ontem um assistente na página da TEDxLisboa, no Facebook.

In english, please Entre speakers e talks, Cristina Marques da Silva pedia ao intervalo para as pessoas mudarem de lugar na sala. Durante o almoço houve troca de experiências entre uma sopa de meloa "original" - como se ouvia pelos corredores da faculdade - e massagens de relaxamento. "As conversas têm de continuar para além desta sala", alertava Cristina. A organização teve de alterar o local das conferências porque o número de inscrições superou os lugares disponíveis. "Brigavam comigo, diziam-me que eu não podia inscrever mais gente. Mas se as pessoas queriam vir, era uma pena não poderem. Não era?", questiona Cristina Marques da Silva. Ainda assim mais de 300 pessoas ficaram de fora, em lista de espera.

Cinco meses de organização e uma TEDx depois, Cristina já só pensa no próximo desafio. O TED Youth Day - um dia dedicado às ideias dos jovens - a 20 de Novembro próximo.

"Falta, por aqui, uma grande razão", lia Nicolau Santos, com batuque de djambé, na despedida. Ali não.


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close