Saúde

Crise volta a colocar SNS no fio da navalha

Publicado em 17 de Maio de 2010   
Especialistas em economia da saúde defendem que este sector terá de seguir a austeridade que vai reger o resto do país
Opções
a- / a+
A ministra Ana Jorge, que tem governado seguindo o discurso da defesa do serviço público, garante que não haverá "cortes cegos" na saúde. Mas só por milagre a crise deixará tudo igual. São já várias as vozes que afirmam que os tempos obrigarão a uma mudança num sector responsável por uma boa fatia do Orçamento do Estado e que tem as contas a derrapar. O especialista em economia da saúde, Jorge Simões, é um deles. Em declarações ao i, defende medidas austeras ajustadas ao clima de contenção que vão do recuo nos medicamentos gratuitos, à revisão do pagamento de horas extraordinárias aos médicos, passando pelo fecho de serviços de saúde duplicados.

Medicamentos. A nova legislação que altera as regras da comparticipação nos medicamentos foi anunciada em Março e acaba de ser publicada. Mas Jorge Simões defende que, mesmo antes de avançar, já devia ser revista. "Este pacote foi pensado no início de 2010, aconteceram muitas coisas desde então", refere [ver entrevista ao lado]. O exemplo vai para a decisão de fornecer gratuitamente medicamentos aos pensionistas com rendimentos ao nível do salário mínimo ou como incentivo ao consumo de genéricos. Para o professor da Universidade de Aveiro, aplicada a remédios, a palavra "gratuito" é sinónimo de desperdício. Opção melhor seria fazer com que o doente arcasse com uma parte, "mesmo que fosse simbólica", do preço, seguindo o princípio das taxas moderadoras no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Mas os cortes não devem ficar por aqui e podem ser mais estruturais. O especialista, que é um dos responsáveis pela actual elaboração do Plano Nacional de Saúde, refere que o próprio alargamento de serviços de saúde deve ser repensado. Em vez de medidas para reforçar a universalidade do acesso (como apoios à procriação medicamente assistida ou os cheques-dentista), a prioridade deverá ser voltar atrás e centrar os recursos nos cuidados mais precisos.

Pedro Pita Barros defende algo semelhante. O economista da saúde, também responsável pelo estudo sobre a sustentabilidade financeira, diz que "a diminuição do desperdício é sempre um objectivo e há aqui alguma margem ainda a ser ganha apesar de, infelizmente, as últimas notícias, nomeadamente sobre o sector hospitalar, não serem de grande descanso". Mas os problemas a longo prazo não ficam resolvidos. "O crescimento da procura de cuidados de saúde continuará a fazer-se sentir. A médio prazo é necessário actuar sobre o que faz crescer a procura, passando por uma definição clara das terapêuticas e produtos de saúde assegurados". O que, na prática, significa fazer escolhas e decidir que cuidados deve o SNS prestar. Deixando outros de fora.

Conter gastos. As críticas à falta de uma mão forte nas contas surgem dentro do próprio PS. No seu blogue causa-nossa.blogspot.com, com o título "Bomba de Relógio", Vital Moreira escreveu há dias que "só a distracção ou a imprudência política podem ignorar os sinais preocupantes de deterioração da situação financeira do SNS: crescimento excessivo da factura dos medicamentos, défices crescentes dos hospitais, aumento incomportável das despesas de pessoal." Para o eurodeputado socialista, "desde a saída de Correia de Campos que as noções de ganhos de eficiência e de rigor financeiro abandonaram o discurso político da saúde". Se nada mudar, é o próprio SNS que fica em risco. "Ou a situação se inverte, ou caminhamos para uma situação complicada, com efeitos bem nocivos sobre o saneamento das finanças públicas e, pior do que isso, sobre a sustentabilidade financeira do SNS."


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close