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Quase um terço da subida do IVA vem dos bens essenciais

por Luís Reis Ribeiro, Publicado em 17 de Maio de 2010   
Subida na taxa reduzida dará 400 milhões. Governo perdeu hipótese de introduzir mais justiça nos impostos, criticam fiscalistas
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Cerca de um terço da receita fiscal decorrente da subida nos três escalões do IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado) virá do consumo de bens de primeira necessidade. O governo e o PSD anunciaram na semana passada novas medidas para cortar o défice público: uma delas é a subida generalizada do IVA em um ponto percentual. Assim, entre 1 de Julho próximo e final de 2011, a taxa reduzida do imposto passa de 5% para 6%, aumentando a despesa com bens de consumo essenciais em 400 milhões de euros.

De acordo com cálculos do i, confirmados por vários fiscalistas, o governo deverá encaixar um total de cerca de 1,4 mil milhões de euros até ao final do ano que vem com a subida do IVA, sendo que 30% desse valor (os 400 milhões) corresponde só à subida da taxa reduzida de IVA.

Esta taxa abrange praticamente todos os alimentos e bebidas não alcoólicas, medicamentos, electricidade, transportes públicos, serviços privados de saúde, aparelhos ortopédicos e muitos outros.

Os fiscalistas concordam que, ao decidir aumentar esta taxa de IVA, o governo perde uma oportunidade para introduzir mais justiça fiscal.

António Carlos dos Santos, ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de Sousa Franco, observa que "o IVA tem a vantagem de se adaptar mais rapidamente à conjuntura e de não prejudicar as exportações, mas tem a desvantagem de afectar o consumo interno (a procura de bens e serviços) e de ser um imposto regressivo (logo mais injusto)". O professor de Direito Fiscal do ISEG sugere que "deveria haver uma revisão das listas e não subir a taxa dos 5% (bens essenciais, produtos farmacêuticos, etc.)".

E como está repartido o aumento da receita do IVA? "A subida de um ponto percentual na taxa normal equivale grosso modo a dois pontos percentuais na taxa reduzida e a 0,2 da taxa intermédia", diz. Sabendo que a subida de 1% na taxa normal gera 500 milhões de euros em nova receita durante um ano, logo em ano e meio a subida da taxa normal permitirá ao Fisco encaixar 790 milhões, o que significa que virão mais cerca de 400 milhões da taxa reduzida e mais 160 milhões da intermédia.

Eduardo Paz Ferreira, professor da Faculdade de Direito de Lisboa, concorda que subir impostos "não é a solução ideal, mas é compreensível em face da pressão externa". "Do ponto de vista estrito das finanças públicas creio que poderão ter os resultados desejados. Outra coisa é o efeito sobre a economia e, particularmente, o investimento e o emprego, uma vez que a redução de consumo que irão provocar se reflectirá negativamente. É possível, também, que tenham como consequência algum estímulo à economia paralela", acrescenta.

Na quinta-feira, Sócrates justificou o aumento do IVA com o facto de este ser o imposto "menos recessivo". É também o imposto menos visível e mais injusto, já que surge diluído no preço final dos bens e serviços, sendo pago por todos, independentemente do seu escalão de rendimentos. No caso de Portugal, onde 18% da população é considerada pobre e cerca de 60% das famílias (mais de 2,5 milhões de agregados) vive com menos de mil euros líquidos/mês, percebe-se que a subida transversal do IVA levanta problemas de injustiça.

Para além disso, o governo resolveu criar uma taxa especial de IRS: 1% sobre os rendimentos brutos das famílias que ganhem menos de 18 mil euros anuais e 1,5% para rendimentos superiores.

E aqui também a promoção da equidade fiscal fica pelo caminho. António Carlos dos Santos, um dos autores da mais recente proposta de reforma do sistema fiscal, defende que "no IRS, deveria garantir-se a não tributação do mínimo de existência, haver tributação de apenas 0,5% para os rendimentos dos três primeiros escalões, de 1,5% para os restantes com excepção dos superiores a 100 ou 150 mil euros (incluindo profissões liberais e bónus), aos quais se aplicariam taxas especiais mais elevadas". Não foi esse o entendimento do governo e do PSD.


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