PRIMEIRO PLANO

O que o bloco central não nos diz

por João Rodrigues, Publicado em 17 de Maio de 2010   
O plano das elites é a fuga em frente: mais cortes na despesa e no investimento públicos, cortes nos salários e subida do IVA
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A selectiva pressão dos mercados financeiros ainda liberalizados estilhaça todos os contratos que estão na base da democracia, em especial nas periferias da União Europeia. Para todos os efeitos, em Portugal passamos a ter um bloco central que governa com o programa de austeridade de Ferreira Leite e dos economistas do choque e do pavor que cirandam por Belém. Este programa foi derrotado nas urnas em Setembro. Convém lembrar que Sócrates foi eleito com um programa que tinha como palavras-chave o emprego, a promoção do investimento e a justiça social.

A renovada terapia de choque nas periferias, como contrapartida de um fundo europeu desenhado por governos dos países centrais que só se preocupam com a protecção dos balanços dos seus grandes bancos, pode ser pior do que os terríveis planos de ajustamento do FMI dos anos oitenta. Estes sempre previam a desvalorização cambial como mecanismo crucial para a promoção das exportações; este caminho está agora vedado e os principais destinos das nossas exportações estão apostados nas mesmas receitas de contracção dos seus mercados internos, o que não augura nada de bom.

As elites portuguesas meteram-nos numa zona euro disfuncional, abdicando de instrumentos de política económica sem que à escala da União estivessem previstos mecanismos de solidariedade geradores de crescimento e de emprego. O plano das elites é a fuga em frente: mais cortes na despesa e no investimento públicos, cortes nos salários e subida do mais regressivo dos impostos, o IVA, que em Portugal já tem um peso desproporcional na estrutura dos impostos.

Nada nos dizem sobre os efeitos, mas estes parecem claros: nova recessão, mais desemprego e nova ronda de cortes, num ciclo vicioso que promete gerar mais décadas perdidas de crescimento. Vale tudo para salvar um sistema financeiro igualmente disfuncional?

Na ausência de reformas de fundo na arquitectura do governo económico europeu, que passariam por um orçamento comunitário com muito mais peso e por um BCE disposto a apoiar os Estados da mesma forma que apoiou os bancos, só restará às periferias uma hipótese: reestruturar as dívidas e impor parte do custo do ajustamento sobre os credores, abandonar o euro e desvalorizar as respectivas moedas e iniciar um processo de reformas que passe pela inevitável nacionalização do sistema financeiro ou pela criação de uma verdadeira política industrial.

Já não é a primeira vez que países fazem isto com sucesso: a Argentina cresceu rapidamente nos anos subsequentes ao rompimento, em 2001, com a ortodoxia económica.

Temos duas alternativas: reforma e aprofundamento progressistas da integração europeia ou saída do euro.

Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas (www.ladroesdebicicletas.blogspot.com)


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