Dia 4. Um Papa diferente na hora da despedida
por Rosa Ramos, Publicado em 15 de Maio de 2010
Nos quatro dias em que esteve em Portugal, Bento XVI preferiu não improvisar e seguiu à risca tudo o que estava escrito nos discursos que trouxe do Vaticano - um procedimento normal, justificou o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, "quando o Santo Padre não lê em italiano". Ontem, no Porto, o Papa voltou a guiar-se religiosamente pelas cábulas e, na homilia da missa da Avenida dos Aliados, falou aos portugueses de uma Igreja que quer servir a "humanidade actual". Uma Igreja que não se impõe, mas que "propõe", pronta para enfrentar "desafios novos" e disposta a "dialogar com outras culturas e religiões".
A homilia, que durou 15 minutos, serviu para o Papa apelar, também, a um reforço missionário da Igreja - numa sociedade em que o "quadro antropológico, cultural, social e religioso" está diferente. Para isso, pediu aos cristãos uma "missão inadiável": que sejam "missionários" de Cristo. "Se não fordes vós as suas testemunhas, quem o será em vosso lugar?", questionou. "Temos de vencer a tentação de nos limitarmos ao que ainda temos de nosso e de seguro: seria morrer a prazo, enquanto Igreja de presença no mundo", acrescentou. "Hoje a Igreja é chamada a enfrentar desafios novos e está pronta para dialogar com culturas e religiões diversas, procurando construir (...) a pacífica convivência dos povos", garantiu Bento XVI, acrescentando que a Igreja é chamada "a servir a humanidade do nosso tempo". Um desafio proposto por Bento XVI, acredita o teólogo Peter Stilwell, "à actualização", para "evitar o risco de se ficar agarrado aos modelos pastorais de outros tempos". Uma ideia, acrescenta, "que pode ser considerada inovadora".
Um Papa diferente A mensagem deixada pelo Papa, ontem, no Porto, pode significar uma "viragem no pensamento" de Bento XVI, acredita o teólogo Joaquim Carreira das Neves. "Para quem está habituado a conviver com os escritos do Papa sabe que as ideias defendidas não estão muito de acordo com a pastoral que se encontra em mensagens anteriores. Bento XVI insistiu sempre numa posição de imposição da Igreja na sociedade, numa oposição ao relativismo de valores e ao mundo do abismo", justifica. Ainda em Fátima, durante o encontro com os Bispos, Bento XVI pediu mais atenção "aos novos movimentos" que têm vindo a surgir na Igreja. "Durante demasiado tempo, relegou-se para segundo plano a responsabilidade da autoridade como serviço ao crescimento dos outros e antes de mais ninguém dos sacerdotes", disse. Bento XVI até confessou que tem contactado com alguns dos novos movimentos e novas comunidades eclesiais, considerando-os uma "agradável surpresa" e acrescentou: "Num momento de fadiga da Igreja, em que se falava do Inverno da Igreja, o Espírito Santo cria uma nova Primavera". Mas mesmo assim, deixou claro que é preciso que "estas novas realidades queiram viver na Igreja comum". Uma posição, acredita Carreira das Neves, "que não deixa de ser surpreendente" e um aviso "importante" - porque os novos movimentos "são muito importantes e interessantes, mas demasiado voltados para dentro", considera. Mas Peter Stilwell garante que a mensagem mais importante que Bento XVI deixou surgiu logo no primeiro dia, "quando disse que é preciso fazer uma viagem ao centro de nós mesmos para reforçar a qualidade do testemunho" cristão: "Foi este o fio condutor de todas as homilias. Como bom professor que é, Bento XVI fez um resumo prévio".
O adeus "O Papa era pouco conhecido em Portugal e considerado uma pessoa fria. Ficou uma imagem familiar e amiga da sua personalidade discreta e gentil", garantiu o porta-voz do Vaticano. Reunido com os jornalistas, Federico Lombardi adiantou que o Papa viveu a passagem por Portugal com "serenidade e alegria" e que, em todos os momentos, Bento XVI esteve "de boa saúde. A fé mostrada pelos portugueses, sublinhou, trouxe "esperança à Igreja". A viagem a Portugal foi, para Bento XVI, a confirmação de que "Deus acompanha a Igreja, apesar das dificuldades internas e externas". Antes de partir para Roma, às 14h15, o Papa dirigiu uma última palavra aos portugueses, para garantir que levaria "guardada na alma a cordialidade" do acolhimento "afectuoso" que recebeu em Portugal. No fim de tudo, a tradicional bênção apostólica - de "esperança, paz e coragem". "Não cesse entre vós de crescer a concórdia, essencial para uma sólida coesão, caminho necessário para enfrentar com responsabilidade comum os desafios com que vos debateis".
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