Coreia do Norte. Teste nuclear para pressionar Barack Obama
por Gonçalo Venâncio, Publicado em 26 de Maio de 2009
Pyongyang volta a desafiar o mundo e prepara possíveis sucessores de Kim Jong Il
Sem a ameaça nuclear, a capital da Coreia do Norte, Pyongyang, não passaria de uma cidade pobre de um país obscuro, conhecida apenas por diplomatas, craques de geografia e jogadores de Trivial Pursuit. Sem o fantasma americano, talvez Kim Jong Il já não fosse o Querido Líder do país. A receita de músculo e de medo serve tanto a estratégia de afirmação internacional como a sobrevivência do regime comunista.
Ontem a Coreia do Norte realizou mais um ensaio nuclear que trouxe o país para o topo das ameaças globais. A explosão nuclear, realizada a cerca de dez quilómetros de profundidade, na cidade de Kilchu, no Norte do país, foi detectada pelos sismógrafos russos e americanos e produziu um abalo com a intensidade de 4,5 na escala de Richter.
Mais preocupante foi a indicação dada pelo Ministério da Defesa russo, sugerindo que os Coreanos atingiram um novo patamar tecnológico. Segundo Moscovo, o poder desta explosão nuclear pode ter chegado às 20 quilotoneladas, superando largamente o último teste do género conduzido por Pyongyang, em 2006.
Para completar o círculo de provocações, os comandos militares coreanos lançaram ontem três mísseis de curto alcance.
As condenações da comunidade internacional surgiram em catadupa: os vizinhos do Sul consideraram o teste "muito frustrante" e a Bolsa de Seul caiu 2,9%. De Tóquio a Washington passando por Bruxelas, o tom de reprovação foi geral.
A atenção da comunidade internacional serve na perfeição os interesses de Pyongyang. A deriva militarista da Coreia tem como objectivo sentar à mesma mesa o "Querido Líder" e Barack Obama. É sabido que Pyongyang quer uma via diplomática directa com Washington. Por outro lado, a bomba assenta que nem uma luva nos interesses domésticos dos comunistas.
Desde Agosto que, na sequência de um ataque cardíaco, o "Querido Líder" não aparece em público. O debate sobre a sucessão está aberto. O fantasma da ameaça americana ajuda a manter a unidade do povo e assegura a sobrevivência do regime.
Os observadores acreditam que a retórica violenta da Coreia do Norte é um sinal de que as mudanças estão para breve. "Não sabemos se já há uma nova liderança, mas é claro que estão a trabalhar em planos de contingência", revela um diplomata americano ao diário "The Wall Street Journal".
Há 15 anos, Kim Jong Il sucedeu ao seu pai, Kim Il Sung. Será que a história se repete?
Em cima da mesa têm aparecido insistentemente dois nomes: Jang Seong Taek, genro de Kim Jong Il, recentemente indicado para um lugar na poderosa Comissão de Defesa Nacional, e Kim Jong Un, o mais novo de três filhos do "Querido Líder".
Washington e Pequim olham para a possível linha de sucessão com muita atenção.
A Coreia do Norte é um cofre de vários segredos sobre a tecnologia nuclear: o possível colapso do regime deixa os americanos numa posição pouco confortável, enquanto os chineses querem acima de tudo evitar a fuga de milhões de coreanos que vivem em pobreza extrema, e sobretudo pretendem manter a sua zona tampão.
A gestão da Coreia continua a ser um negócio de família e, nos próximos tempos, é provável que Kim Il Sung, o pai do actual líder, continue - do alto da sua estátua de bronze com mais de 20 metros - a apontar o caminho aos norte-coreanos.
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