E ao terceiro dia Bento XVI desceu aos assuntos terrenos. Ao campo político, incluindo a crise económica e social que também atinge Portugal. Mas sobretudo ao combate pelos "direitos humanos", o que inclui a luta contra o aborto e os casamentos homossexuais. Os representantes das mais diversas organizações sociais católicas que se reuniram ontem à tarde num encontro na Igreja da Santíssima Trindade aplaudiram com fervor a menção do Papa às duas causas que fracturam a sociedade portuguesa - e, em especial, ao aborto.
"Exprimo profundo apreço a todas aquelas iniciativas sociais e pastorais que procuram lutar contra os mecanismos socioeconómicos e culturais que levam ao aborto", disse Bento XVI. No final, receberia os cumprimentos da advogada e ex-deputada do PSD, Isilda Pegado, uma das figuras mais mediáticas das campanhas pelo "Não" nos referendos sobre a interrupção voluntária da gravidez. Um combate em que a Igreja Católica não se dá por derrotada, com o Papa a elogiar todas as iniciativas que "têm em vista a defesa da vida" assim como "a reconciliação e cura das pessoas feridas pelo drama do aborto". Isto sem politizar a questão. Diz ele: é fundamental "conceder à actividade caritativa cristã autonomia e independência da política e das ideologias".
casamento gay O sucessor de Pedro trata o aborto como uma questão de direitos humanos, de dignidade da mulher e do homem. A mesma dignidade que, segundo as suas palavras, deve ser dada à família "fundada sobre o matrimónio indissolúvel de um homem com uma mulher", uma resposta "a alguns dos mais insidiosos e perigosos desafios que hoje se colocam ao bem comum".
A referência indirecta aos casamentos homossexuais, aprovados em Janeiro no parlamento mas que Cavaco Silva poderá vetar depois de ter pedido a fiscalização da constitucionalidade do diploma, recebeu de novo os aplausos entusiastas da assistência. O Presidente da República foi também aplaudido na missa das 10 da manhã de ontem no Santuário de Fátima quando Bento XVI o saudou, incluindo depois as "demais autoridades ao serviço desta nação gloriosa". Cavaco estava presente.
Segredos
Apesar de todos estes assuntos serem terrenos, Bento XVI não abandonou nunca o tom profético que tem mantido nesta visita, afirmando que "tudo isto se enquadra na mensagem de Nossa Senhora que ressoa neste lugar". Tudo, incluindo "o cenário actual da história" que "é de crise socioeconómica, cultural e espiritual" também em Portugal. Ainda de manhã a frase de Bento XVI tinha sido mais mística sobre os três segredos e a importância desta terra para a Igreja Católica: "Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída".
Já na conferência de imprensa com o porta-voz do Vaticano Federico Lombardi, os vaticanistas voltaram a questionar se esta leitura de Bento XVI não seria uma reinterpretação da mensagem de Fátima. "É uma mensagem aberta e permanente", sublinhou Lombardi, explicando que o papel das profecias e dos profetas sempre foi iluminar a actualidade.
Os padres têm tido lugar de destaque nas intervenções de Bento XVI, em mensagens que assinalam o fim do Ano Sacerdotal 2009/2010. Ontem, no encontro com os bispos ao final do dia, o Papa deixou duas linhas de orientação claras para a reorganização da pastoral portuguesa: cuidar dos padres e dos "crentes envergonhados." A vinda ao país e este encontro levaram a conferência episcopal a adiar a publicação de uma nota pastoral sobre o "rosto missionário", aprovada em Abril, para incluir as reflexões de Bento XVI, adiantou ontem ao i o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa Manuel Morujão. O documento está agora previsto para o próximo mês.
"Há necessidade de verdadeiras testemunhas de Jesus Cristo, sobretudo nos meios humanos onde o silêncio da fé é mais amplo e profundo: políticos, intelectuais, profissionais da comunicação", sublinhou Bento XVI. Identificou depois uma falha no acompanhamento dos padres. "Durante demasiado tempo relegou-se para segundo plano a responsabilidade da autoridade como serviço de crescimento dos outros, antes de mais ninguém dos sacerdotes", disse Bento XVI, explicando que é preciso que consigam chegar ao coração das pessoas.
Civilização do amor
Ao contrário da imagem comum do actual Papa como um homem de letras, um académico e intelectual austero e distante das multidões, Bento XVI apareceu nestes dois últimos dias em Fátima sempre "com grande alegria" e "grande amizade", insistindo ontem nas várias celebrações no "novo mandamento do amor", porque "Cristo ensina-nos que Deus é "amor'". Para Bento XVI, a missão de Fátima inclui a construção de uma nova "civilização do amor".




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