Visto de fora
Sexo, drogas e o derrame
por Paul Krugman, Publicado em 14 de Maio de 2010
A promiscuidade entre os lóbis da indústria e os organismos governamentais que a regulamentam é mortal. Esses vícios do passado precisam de ser combatidos e banidos
"O Katrina de Obama": assim rezava o estribilho dos gurus e fontes noticiosas que tentavam atribuir à actual administração as culpas pelo derrame de petróleo no Golfo do México. Um perfeito disparate. Uma análise efectuada pela Associated Press das acções e declarações da administração Obama durante o desenrolar da catástrofe constatou que havia "poucas semelhanças" entre elas e a reacção descoordenada e disfuncional ao furacão Katrina - e nada de semelhante com a situação que se viveu quando parecia que toda a gente, com excepção do círculo íntimo de Bush, sabia que havia uma catástrofe humana em Nova Orleães.
E contudo há um fio condutor que liga o Katrina ao derrame no Golfo do México - nomeadamente a total quebra de competência e eficácia governamentais registado durante a era Bush.
Todo o alcance dos pormenores da explosão da plataforma Deepwater Horizon ainda está a surgir. Mas já se tornou evidente que as falhas foram em dois campos: a BP falhou por não ter tomado as precauções adequadas; os órgãos federais competentes falharam por não terem tomado medidas para garantir que essas precauções fossem tomadas.
Durante anos, o Serviço de Gestão de Minerais tem vindo a minimizar os riscos ambientais dessas perfurações. Não exigiu a instalação de um sistema de recurso para o encerramento dos poços, sistema esse que é a norma em grande parte do mundo, e isso apesar de o seu próprio pessoal ter declarado que tal sistema era necessário. Isentou muitas empresas de perfuração no alto mar da obrigatoriedade de apresentarem planos de contingência em caso de derrames importantes. E, mais especificamente, autorizou a BP a perfurar o Deepwater Horizon sem que existisse um estudo ambiental pormenorizado.
Presumo, no entanto, que nada disso - com a possível excepção da isenção atrás referida, concedida nos primeiros tempos da administração Obama - cause surpresa a quem tenha acompanhado a actuação do departamento do Interior durante os anos Bush.
Porque a administração Bush foi, em grande medida, gerida pelas indústrias extractivas e em benefício delas. E não me estou a referir sequer ao grupo de intervenção energético de Dick Cheney. Emblemático e grave foi o facto de o departamento do Interior ter sido entregue aos grupos de pressão, nomeadamente a J. Steven Griles, testa-de-ferro da indústria do carvão, que se tornou vice-secretário do departamento e que, na prática, o dirigia. Neste contexto, não admira que o Serviço de Gestão de Minerais tenha ficado subordinado à indústria petrolífera - embora os resultados práticos tenham sido quase assustadores de mais para serem credíveis. Segundo relatórios do inspector-geral do departamento do Interior, os abusos foram além da influência indevida. Instalou-se "uma cultura de consumo de estupefacientes e de promiscuidade": cocaína, relações sexuais com representantes do sector e muito mais. A protecção do ambiente era a última das preocupações de tais funcionários governamentais.
É verdade que o Presidente Barack Obama não é completamente inocente de culpas no particular do actual derrame de petróleo. Como disse, a BP foi brindada com uma isenção ambiental relativamente ao Deepwater Horizon depois de Obama ter sido empossado. É verdade que ele só estava instalado na Casa Branca há dois meses e meio e que o Senado não confirmou o novo chefe do Serviço de Gestão de Minerais senão quatro meses depois. Mas a circunstância de a Administração não ter tido ainda tempo de imprimir a sua marca naquele organismo deveria ter sido razão de prudência adicional relativamente à aprovação de projectos com potenciais riscos ambientais.
E é digno de nota que os ambientalistas ficaram profundamente desiludidos com a escolha feita por Obama para secretário do Interior: Ken Salazar. Temiam que ele fosse demasiado próximo dos interesses minerais e agrícolas e que a sua nomeação significasse que não haveria uma ruptura decisiva com as políticas da era Bush. Seja como for, chegou a altura de marcar essa ruptura. E não me refiro apenas ao necessário saneamento do Serviço de Gestão de Minerais. O que é preciso mudar é toda a nossa atitude para com o governo. É que os desmandos no departamento do Interior não foram caso único. Faziam parte de um padrão mais abrangente que incluiu a falta de regulação da banca e a transformação da Agência Federal de Gestão de Emergências, um organismo muito admirado durante a era Clinton, numa anedota. O tema comum a todas estas histórias é a degradação da eficácia governativa, vítima da ideologia antigoverno.
Obama compreende-o: foi especialmente eloquente na defesa da instituição governo na abertura do ano lectivo da Universidade de Michigan, tendo declarado, entre outras coisas, que "o governo é a instituição que garante que as minas respeitem normas de segurança e que os derrames de petróleo sejam limpos pelas empresas que os causaram".
E, contudo, a ideologia anti-governo, apesar do caos que tem provocado, continua a ter demasiado protagonismo. Se houver um lado positivo na catástrofe do Golfo do México, é o de poder servir para despertar as consciências e provar-nos que precisamos de políticos que acreditem na necessidade do bom governo, porque há algumas tarefas que só o governo pode desempenhar.
Economista Nobel 2008
Exclusivo i/The New York Times
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