Obras públicas acendem o rastilho entre Cavaco Silva e governo Sócrates
Publicado em 05 de Maio de 2010
Presidente da República recebe opositores das grandes obras. "É ao governo que compete governar", responde o ministro Vieira da Silva
O epicentro da oposição ao TGV e às grande obras públicas passa por Belém. Depois da longa audiência a Paulo Portas, ontem ao fim do dia, o Presidente da República recebe segunda-feira o grupo de antigos ministros das Finanças contestatários, em que se incluem Medina Carreira, Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite, entre outros. Todos com a mesma opinião, pelo adiamento das grandes obras, a começar pelo comboio de alta velocidade. Ontem o ministro das Obras Públicas,António Mendonça, respondia que os ex-ministros “tiveram o seu tempo”. Deste modo: “Quero salientar que se trata de ex-ministros, que tiveram o seu tempo e as suas responsabilidades próprias, o tempo presente e as responsabilidades pertencem, neste momento, ao governo e aos ministros.”
O TGV conseguiu reacender o rastilho do confronto entre governo e Presidência, com o PS ao fundo. Depois de Cavaco Silva pedir a reavaliação dos grandes investimentos públicos e de ser conhecido o encontro de segunda-feira com os ex-ministros das Finanças, Vieira da Silva, o ministro da Economia que faz parte do chamado núcleo duro do primeiro-ministro, afirmou ontem: “As opiniões são livres no nosso país e têm sido expressas de forma muito intensa por muitos economistas e responsáveis”, mas “é ao governo que cabe governar”.
Também o vice-presidente da bancada parlamentar do PS, Ricardo Rodrigues, dizia ontem à TSF que o Presidente da República “quer entrar nessa contenda” e não pode “dizer que, ao receber um grupo de pessoas muito respeitáveis, todas elas ex-ministros e que já anunciaram que são contra os investimentos públicos do governo, que isto não tem significado político”.
Já o secretário-geral e porta-voz do PSD, Miguel Relvas, defendia ontem no final da reunião da comissão política do partido que “a suspensão imediata das obras públicas é uma base essencial para que a cooperação com o governo seja uma realidade e para que o PEC possa ter efeito”. Relvas faz assim depender a cooperação dos sociais-democratas no Programa de Estabilidade e Crescimento da travagem a fundo do governo nas grandes obras.
Se Paulo Portas foi ontem a Belém repetir a Cavaco a posição já conhecida dos centristas sobre a matéria, Francisco Louçã insiste que o Bloco de Esquerda rejeita a suspensão do TGV. O líder do BE garante ainda que o “pedido de suspensão ou anulação do investimento na alta velocidade para a ligação à Europa não tem qualquer condição de viabilidade parlamentar”. Isto a propósito do agendamento, solicitado pela bancada do CDS, de uma apreciação parlamentar do decreto-lei sobre a concessão Poceirão-Caia da ligação ferroviária de alta velocidade, marcada para dia 28 deste mês.
Francisco Louçã sublinha que “o projecto do CDS morreu, não tem coerência, viabilidade nem nenhuma resposta à economia nacional”, pelo que terá o voto contra da bancada do BE – uma posição que já foi transmitida ao governo.
Além da contestação às grandes obras e aos investimentos públicos do governo, Paulo Portas pretendeu ontem marcar a diferença em relação ao novo líder do PSD, ao pedir uma audiência a Belém. Fonte próxima da direcção do CDS diz ao i que “cada um escolhe os seus amigos: Passos Coelho foi na semana passada reunir-se com o primeiro-ministro e Paulo Portas vai encontrar-se com Cavaco Silva”.
Em pano de fundo estiveram as “preocupações e as dúvidas” de Portas sobre os investimentos em grandes obras públicas, a começar pela insistência do governo na linha do TGV. “Eu pergunto, podemos ter as grandes obras todas ao mesmo tempo? São todas igualmente prioritárias? O país financeiramente aguenta encargos destes? Isto vai ou não vai directamente ao contribuinte?”
Apesar da crescente contestação política, a assinatura do contrato do primeiro troço do TGV, relativo à linha Lisboa-Madrid, está prevista para este sábado. Depois do presidente do BES, Ricardo Salgado, foi o presidente-executivo do Banco Santander no Reino Unido, Horta Osório, dizer que os megaprojectos devem ser “repensados”. Os dois banqueiros lideram instituições que não estão no consórcio que ganhou o concurso para o primeiro troço do TGV.
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