PRIMEIRO PLANO

A força do empresarialmente correcto

por João Rodrigues, Publicado em 25 de Maio de 2009   
No discurso empresarialmente correcto os gestores são um proveito, enquanto os outros trabalhadores são um custo para as empresas
Opções
a- / a+

A força do empresarialmente correcto, mais poderoso do que o chamado politicamente correcto, ficou demonstrada com uma cambalhota do PS. Em Abril, este partido tinha aprovado, na generalidade, uma proposta do BE que, entre outras coisas, tributava fortemente os prémios auferidos pelos administradores de empresas. Tratava-se de uma proposta sensata num país onde as desigualdades salariais, das mais elevadas do mundo desenvolvido, não param de crescer. Tratava-se de uma proposta expressiva que iria remover alguns dos privilégios dos gestores de topo, um poderoso e pouco escrutinado grupo de interesse. Na semana passada, o PS decidiu chumbar, na mais discreta especialidade, a proposta anteriormente aprovada. Esta atitude mostra como o PS continua preso à ideologia económica liberal responsável pela crise. Uma ideologia que ofusca alguns factos essenciais. A perversa cultura dos milionários bónus em função dos resultados inscreveu a ganância, a fraude e a miopia no coração do sistema económico. Basta lembrar os acontecimentos recentes no sistema financeiro que todos os contribuintes vão ter de pagar. O que se passa nas empresas é antes de mais o resultado de decisões políticas que estabelecem as regras do jogo. Estas definem o recorte dos direitos e obrigações dos seus diferentes actores - trabalhadores, gestores ou accionistas - e influenciam a definição de quem tem poder para se apropriar do quê e a transparência com que o faz. A política nunca pára à porta da empresa, seja ela pública ou privada. O que aí se passa tem impactos sociais e diz respeito a todos.

Um enquadramento legal e fiscal complacente para com os gestores tem alimentado todos os abusos e todas as desigualdades.

Assim se mina a confiança e a motivação da maioria dos trabalhadores. O discurso empresarialmente correcto despreza este facto de forma ostensiva. Os gestores são vistos como um proveito enquanto os restantes trabalhadores são encarados como um mero custo para a empresa. Os países mais desenvolvidos, onde a diferença entre ricos e pobres é quase metade da portuguesa, como é o caso dos países nórdicos, têm economias mais decentes porque reconhecem que o sucesso resulta do esforço colectivo. A distribuição de rendimentos é demasiado importante para ser deixada à sorte do despotismo empresarial gerado por más regras ou à ficção do mercado livre. Para o discurso empresarialmente correcto, quem se preocupa com estes temas está a incitar à inveja. Este discurso é incapaz de perceber que se está apenas a incitar à eficiência e à justiça social.

Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas



Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close