PRIMEIRO PLANO
Não se pode ter tudo
por Jaime Nogueira Pinto, Publicado em 04 de Maio de 2010
Do 25 de Abril ficámos com a descolonização e a democracia, a que fizemos e a que temos. E o desenvolvimento? Não se pode ter tudo
No cocktail de discursos oficiais, entrevistas, balanços que sempre acompanha o 25 de Abril, é clássica a referência aos propósitos e aos objectivos. O MFA fez-se e fez a revolução para realizar os famosos três dês: descolonizar, democratizar e desenvolver.
Descolonizar, além de ser um ponto corporativamente importante para uma parte dos oficiais envolvidos, que pretendiam o fim da guerra, era uma exigência de toda a esquerda doméstica, partilhada pela própria esquerda do regime - a ala liberal. Era para fazer, fosse como fosse e doesse a quem doesse. Fez-se e foi o que se viu.
Democratizar era outro desiderato comum da sociedade portuguesa, até dentro do próprio regime. Ninguém acreditava que, desaparecido Salazar, fosse possível manter um sistema autoritário na Europa ocidental, trinta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial.
A diferença estava no tempo e no modo da transição. Continuou a estar: com o golpe militar e a revolução esquerdista que se lhe seguiu veio o confronto entre dois conceitos de democracia - a democracia pluralista, liberal, à europeia, de parte do PS, do PSD e do CDS, e a democracia popular, à soviética, com algumas modalidades folclóricas, em função do paladar: maoista, albanesa, cubana. A diferença estava na forma de instaurar o socialismo, ou cortando mais cabeças ou pondo ênfase na reeducação da burguesia, ou socializando os pinhais ou condenando barbeiros e merceeiros como perigosos sabotadores económicos.
O terceiro dê era o desenvolvimento. Bem podia esperar.
Nos caminhos para a descolonização houve a tal unidade, que na crise Palma Carlos, no Conselho de Estado, juntou o próprio professor Freitas do Amaral à esquerda. Na crise Spínola, no 28 de Setembro, houve nova unidade antifascista: os maus da fita passaram a ser os partidos à direita do CDS - o Liberal, o Cristão-Democrata, o Partido do Progresso, o MAP. Que foram fechados. E os seus dirigentes e militantes, "malfeitores associados", foram também fechados - na cadeia, donde alguns só sairiam depois do 25 de Novembro de 1975.
Quando chegou o 11 de Março e o caminho para o socialismo, já as barbas de muitos ardiam, até no PS, que mesmo assim aplaudiu as nacionalizações.
Depois foi o Verão Quente e o PC, o MFA e o "povo unido" uniram-se na marcha vertiginosa para o socialismo. Foram parados pelo outro povo, o povo da direita, também unido, do Minho a Rio Maior, que, através de formas superiores de luta, criou as condições para o governo Pinheiro de Azevedo e o 25 de Novembro. Decidido pelos Comandos e pela Força Aérea, o processo foi travado pela recuperação que o MFA de Melo Antunes fez dos comunistas, sacrificando a extrema-esquerda.
A Constituição de 1976 consagra estes encontros e desencontros e ainda aí está.
Assim ficámos com a descolonização e a democracia, a que fizemos e a que temos. E o de- senvolvimento? Paciência, não se pode ter tudo.
Professor universitário
P.S. Por razões profissionais e também devido às recentes alterações na direcção editorial do i, interrompo com esta crónica a minha colaboração neste diário, despedindo-me dos seus leitores e de toda a equipa do jornal para o qual fui convidado pelo Martim Avillez de Figueiredo.
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Não se pode ter tudo
Actividade em ionline