O principal evento da próxima semana será o apoio ou não da União Europeia à Grécia. Qual seria o melhor resultado para Portugal?
Vejamos o que se pode passar: O primeiro cenário é o pior: a Alemanha continua a empatar, não se comprometendo até às eleições regionais, daqui a duas semanas. Os investidores ficam nervosos e abre-se uma janela de oportunidade para especular que a Grécia vai renegar as suas dívidas. O pânico alastra, com uma corrida a vender as obrigações portuguesas e um aumento brutal da nossa taxa de juro, que nos pode levar à falência.
No segundo cenário, anuncia--se o auxílio da União Europeia (UE) à Grécia, mas os alemães deixam claro que da parte deles não sai nem mais um euro para ninguém. Os responsáveis da UE realçam que esta ajuda à Grécia é excepcional, pois não querem dar incentivos a que os países europeus se endividem na esperança de serem safos pela UE. Nestas acções, a Europa imita o comportamento dos americanos aquando da falência do Bear Sterns. Abre-se por isso a hipótese de surgir o equivalente do Lehman Brothers na Europa: outro país cujos problemas sejam menos sérios que os gregos, mas do qual se quer fazer um exemplo. Portugal seria o alvo óbvio, até porque pelo nosso tamanho deixar-nos falir não será tão custoso para a Europa. Percebendo isto, os nossos credores tentariam ver-se livres dos empréstimos que nos fizeram, levando a ataques continuados dos mercados nas próximas semanas.
No terceiro cenário, apoia-se a Grécia e anuncia-se um compromisso para ajudar outros países, mas cada caso é um caso. Talvez isto traga alguma calma aos nossos credores, e não se ouça falar de mercados durante uns tempos. No entanto, com milhões de euros a jorrarem para a Grécia, e se os gregos, seguindo o comportamento dos últimos anos, continuarem a enganar-nos nas contas e a adiar quaisquer reformas, a paciência da opinião pública europeia vai ser posta à prova. A suspeita de que a torneira se pode fechar antes de chegar a vez de Portugal pode crescer, e os mercados voltam ao ataque.
No quarto cenário, deixa-se a Grécia nas mãos do FMI, notando que as suas contas públicas são insustentáveis. Mas também se afirma um apoio incondicional para países que cumpram critérios explícitos e exigentes, e que países como Portugal podem satisfazer mesmo se forem precisos PEC adicionais. Se este anúncio for credível, poderá dar a Portugal a janela de três a cinco anos para resolvermos a depressão económica que já tínhamos antes desta crise. Com alguma sorte, talvez a memória da última semana tenha convencido os portugueses da urgência de se fazerem reformas dolorosas que ponham o país de novo a crescer.
Para que fique claro, toda esta coluna é feita de palpites; a incerteza actual não permite que se façam previsões. Mas, como dizem os manuais de gestão e estratégia, só considerando todos os cenários nos podemos preparar para o que aí vem.
Professor de Economia, Universidade de Columbia rr.ionline@gmail.com
Actividade em ionline