Saúde
Já se irritou com o PC? Então, sofre de stresse informático
por Sandra Pereira, Publicado em 30 de Abril de 2010
Os problemas que mais irritam os internautas são a perda de velocidade e o arranque lento
Esteve mais de meia hora a tentar aceder à internet sem sucesso? Perdeu todos os dados que pesquisou durante meses para a tese de mestrado? O computador crashou enquanto comprava um livro online? Se sim, foi vítima da síndrome do stresse informático (SSI). A definição acaba de ser criada pela médica norte-americana Murray Feingold, que integrou um estudo do centro de investigação industrial "Chief Marketing Officer Council" (CMOC). Em mil inquiridos, 64% admitem que o computador já foi fonte de angústia e ansiedade.
Programador numa start-up de comunicação e marketing, Ricardo Gonçalves sabe o que é uma dor de cabeça digital. Aos 29 anos, não passa uma semana sem "stresse informático". No trabalho o mal é geral. "Não digo que os meus colegas entram em pânico, mas em irritação profunda, certamente!", admite o técnico, que desenvolveu aplicações web para a Media Capital. Nunca perdeu a cabeça, mas irrita-se quando percebe que não vai conseguir concluir uma tarefa de modo simples. "Quando já tentei de todas as maneiras possíveis e não consigo, enerva-me." Resultado? "Altera-te o sistema cardíaco, respondes mal às pessoas." Solução? "Quando atinjo o ponto de saturação, paro e tento abstrair-me do problema. Mais tarde, tento de novo."
"Os consumidores actuais, dependentes de meios digitais, são cada vez mais ultrapassados e enervados por problemas e obstáculos técnicos nas vidas quotidianas", nota o estudo do CMOC, organização que reúne 4500 directores de marketing de 70 países. O estado de ansiedade é permanente quando os utilizadores tentam "configurar novos produtos digitais, actualizar softwares e migrar para novos aplicativos e sistemas operativos", além de lidar com malwares, ameaças na internet e roubos, aponta o estudo. Os problemas do dia-a-dia que mais irritam os internautas são perda de velocidade do software (51%), arranque lento (36%), infecções de vírus (16%). Dos inquiridos, 78% acreditam que conseguem resolver os problemas sem ajuda.
O mal digital parece estar instalado na sociedade actual. No estudo, 94% dos inquiridos asseguram que não conseguem viver sem computador e mais de metade foram obrigados a recorrer a ajuda técnica. "A dependência das pessoas em relação às ferramentas informáticas tornou-se tão grande, que lhe confere o poder de causar grandes perturbações na vida das pessoas quando as coisas correm mal", reconhece o médico Luís Campos, membro da Sociedade Portuguesa para a Qualidade em Saúde.
A SSI poderá ser a nova doença do século XXI? Sim e não. "Dentro das perturbações do futuro, vai associar-se a ansiedade a este contexto, à interface do homem com a máquina", acredita a psicóloga Margarida Gaspar de Matos. Contudo, mesmo que venha a constar como exemplo no manual de psicopatologia, "não me parece que seja uma doença nova, mas uma variante da ansiedade", conclui a coordenadora de várias investigações na área da saúde mental. No fundo, a síndrome é a azáfama da vida diária infligida por um novo suporte. Ter uma definição "pode ser útil para criar armas específicas para diminuir esse stresse", que só deixa de ser saudável quando exagerado, diz Campos.
No estudo, chama-se a atenção de grandes empresas tecnológicas acerca da importância de tornar a experiência do utilizador menos angustiante. É que 40% não estão satisfeitos com a ajuda técnica prestada ou consideram-na cara.
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