O cinema português tem de resolver os seus problemas internos antes de pensar na internacionalização, defenderam hoje realizadores e produtores num encontro em Lisboa.
A ideia surgiu num debate sobre financiamentos e internacionalização do cinema nacional promovido no âmbito do festival de cinema Indie Lisboa, em que participaram produtores, realizadores e exibidores.
Profissionais ligados ao cinema como João Salaviza, Pedro Costa, Fernando Vendrell, Pedro Borges e Luís Urbano e a atriz e deputada socialista Inês Medeiros foram alguns dos participantes no debate moderado por Paula Moura Pinheiro, subdiretora do canal público de televisão RTP2.
Um dos pontos mais polémicos do debate foram as fontes de financiamento do cinema, com fortes críticas ao funcionamento do Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual (FICA) e às contribuições das estações de televisão públicas e privadas para a produção cinematográfica.
O realizador Pedro Costa apelou a uma mudança dos regulamentos do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) para que haja mais filmes portugueses a estrearem comercialmente fora do país, enquanto o seu colega João Salaviza defendeu uma distribuição mais justa e sensata do Orçamento daquele instituto.
Inês Medeiros, que esclareceu estar no debate como deputada, não deixou de se juntar aos agentes do setor, sugerindo que realizadores e produtores têm de ser coerentes e claros nas posições que tomam em defesa do cinema.
A deputada defendeu um reforço do orçamento do ICA com publicidade de outras plataformas além das televisões e a revisão do conceito de obra criativa na atual lei do cinema e do audiovisual.
O debate surgiu numa altura em que a ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, admitiu rever a atual legislação do cinema português e vários profissionais se uniram num manifesto público em defesa de uma diversificação das fontes de financiamento da produção cinematográfica.
Inês de Medeiros afirmou ser urgente "criar um sistema que garanta a regularidade da produção. Enquanto tudo for irregular, tudo for incerto, as regras forem constantemente pontuais e aleatórias, que ninguém entende, ninguém pode fazer projetos a médio ou mesmo a curto prazo".
"Devemos empenhar-nos para ver se conseguimos arranjar soluções, ter propostas concretas, nas quais toda a gente confie, pelo menos durante um tempo mínimo, para ver se funcionam ou não", disse a deputada.
O apelo surgiu no começo do debate, mas a deputada reforçou-o ao longo das duas horas que durou o encontro, uma vez que a discussão se tornou mais acesa com os produtores Fernando Vendrell e Pedro Borges a queixarem-se das fragilidades do atual sistema legislativo sobre o cinema português.
Com a tutela a admitir rever a atual lei do cinema, que data de 2004, Fernando Vendrell, realizador, produtor e um dos responsáveis da Associação Portuguesa de Realizadores, defendeu que os profissionais do setor deviam exigir prazos específicos a Gabriela Canavilhas para implementar novas políticas.
Numa mensagem lida por Miguel Valverde, um dos diretores do Indielisboa, a ministra da Cultura fez saber que "o diagnóstico está elaborado e os problemas identificados" no panorama do cinema e do audiovisual nacionais.
Para Gabriela Canavilhas, o modelo de receitas próprias do ICA, que assenta na cobrança da taxa de exibição, "está esgotado".
O orçamento do ICA provém das receitas de publicidade das televisões e tem gradualmente descido nos últimos anos, implicando a atribuição de menos subsídios para a produção de cinema português.
Gabriela Canavilhas pretende, por isso, criar um modelo baseado em "maior justiça e equidade que diversifique a base de incidência dos contribuintes".
Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.




Rating: 0.0
Actividade em ionline