O ovo a cavalo - André Macedo escreve sobre o prémio de Melhor Jornal Europeu do Ano

por André Macedo, Publicado em 28 de Abril de 2010   
O i recebeu na Áustria o prémio de Melhor Jornal Europeu do Ano, entre 214 candidatos de 27 países
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O i ganhou em Outubro do ano passado uma mala inteira de prémios jornalísticos ibéricos. Na altura, para contrariar as vozes da desconfiança sobre o futuro dos jornais, contei a história do génio do marketing americano que, nos anos 60, achava que os ovos eram um produto sem futuro que acabaria por desaparecer. Porque os ovos não se mantêm em pé, porque se partem facilmente e são difíceis de arrumar, porque são todos diferentes uns dos outros, porque se estragam facilmente - a lista dos argumentos do marketeer parecia bem cozinhada: os ovos estavam fritos.

Anteontem o i recebeu em Viena o prémio de Melhor Jornal Europeu do Ano, entre 214 candidatos de 27 países. Os elogios de um público especializado e desejoso de ver no conceito i uma saída para a indefinição actual da imprensa mundial pareceram-nos simpáticos e generosos, embora às vezes excessivos, já que o caminho editorial que escolhemos é apenas isso - um caminho com virtudes e defeitos, não um milagre. Mas este caminho precisa de algum tempo para ser percorrido (pelos jornalistas) e percebido (pelos leitores). Não se faz num ano, nem em dois; talvez ao terceiro já seja possível ver alguma solidez, mas nunca antes disso. E talvez seja um tipo diferente de solidez.

Há um século toda a gente andava a cavalo. Os que podiam tinham montadas elegantes e coches aveludados; os outros, mais pobres, ficavam-se pelo cavalo desengonçado ou pelo jumento possível. Nessa altura o cavalo ocupava o espaço que o carro veio preencher. Era um bem de primeira necessidade. O que aconteceu aos cavalos quando as ruas foram conquistadas pelos carros? Foram desaparecendo e tornaram--se um luxo ou uma paixão. Perderam mercado. Houve até uns quantos sábios que logo se apressaram a dar a extrema-unção à indústria equestre. Os cavalos, os bons e os maus, os bonitos e os feios, os coxos e os atléticos, os bem e os mal paginados tinham os dias contados, sem excepção.

Tiveram mesmo? Aparentemente sim, na realidade não. Apesar de hoje apenas uma minoria ter cavalos, o negócio vale muito mais do que valia há um século ou dois. Ganha-se, em termos reais, mais dinheiro, os cavalos tornaram-se mais caros e ainda mais desejados. É verdade, o negócio perdeu volume, deixou de ser um mercado de grandes quantidades, mas ganhou uma escala financeira que parecia impossível. Não é para todos, é só para alguns, e esta minoria está disposta a pagar caro por tudo o que toca e envolve esta arte.

É isso: arte. Como aconteceu com a pintura, que ganhou uma nova função social com o aparecimento da fotografia (passou definitivamente a ser apenas arte), e com os cavalos, que percorreram o mesmo caminho (a arte equestre), talvez aconteça o mesmo às mulas teimosas da imprensa. Nem todos vão sobreviver, só os melhores entre os melhores serão capazes de satisfazer o gosto destas pessoas ainda mais exigentes, mais cultas, mais cépticas e mais bem preparadas. Do ovo a cavalo ao jornalismo caviar: pequenas porções, grande intensidade - sempre foi essa a cara do i. Em Viena, toda a gente acha que o futuro passa por aqui. Seja como for, já valeu a pena.


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