Espanha

José Tomás. Toureou a morte, mas levou mais uma cornada

por Gonçalo Venâncio, Publicado em 27 de Abril de 2010   
O deus do toureio continua internado depois de uma colhida grave no México. Em Espanha os gestores de praças fazem contas à vida
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"A caminho da enfermaria ia pisando as poças do sangue do meu filho." Com um nó na garganta, José Román recorda ao "El Mundo" os momentos de angústia que viveu sábado passado em Aguascalientes, a praça mexicana onde a maior estrela do toureio espanhol da actualidade, o matador José Tomás, foi colhido com gravidade.

Numa sequência de naturais (um dos movimentos elementares do toureiro a pé) com o segundo touro do lote, o imponente "Navegante" de 470 quilos, Tomás não conseguiu evitar uma cornada na coxa esquerda que lhe perfurou a artéria femoral. Prostrado na arena, pálido, Tomás esteve 45 minutos a ser assistido ao mesmo tempo que da ferida ia jorrando sangue que formou verdadeiras poças por baixo do seu traje de lantejoulas. Na praça, absolutamente impreparada para um acidente deste tipo, os megafones gritaram por ajuda. "Houve um cirurgião, um tipo com tomates, que chegou e pôs ordem na coisa. Depois meteu as mãos no ferimento e ele próprio estancou a hemorragia. Nem sei como é que ele o fez... fantástico", recorda o pai do matador que teve a vida por um fio.

Hoje José Román, Espanha e o mundo tauromáquico respiram de alívio. A evolução de Tomás é muito satisfatória. Os médicos mexicanos estão surpreendidos com a rápida recuperação do toureiro. "Muito melhor do que esperávamos, ainda que o seu estado seja delicado", revelou ontem o médico Juan Ramírez, traçando o quadro clínico de Tomás nas últimas 48 horas: "De alto risco de morte passou a muito grave e daí a grave. Já não corre risco de vida e respira sem auxilio de ventilação assistida", concluiu o médico.

vida de cornadas. Foi precisamente no México que, em 1996, o então jovem José Tomás tirou a alternativa, tornando-se toureiro profissional. Logo no ano de estreia foi colhido com gravidade na praça de Autlán de la Grana e sofreu duas paragens cardíacas. Daí para cá, o toureiro que matou a primeira bezerra com dez anos perdeu a conta às cornadas marcadas no corpo: das coxas às axilas, dos glúteos ao pescoço, as cicatrizes estão por todo o lado. "Mais de trinta", disse numa entrevista em 2008 - há quem vá à praça só na expectativa mórbida de o ver morrer. Já se somaram algumas colhidas entretanto, mas a de Aguascalientes é uma das mais graves. A caminho do hospital, Tomás entrou em choque, estado que viria a repetir durante a cirurgia. Vinte transfusões e oito litros de sangue depois, o matador estabilizou, porém ninguém arrisca uma data para o regresso do "diestro de Galapagar" às arenas. Em Espanha já há quem deite contas à vida.

Deus do Toureio.Toño Matilla, director da Monumental de Barcelona, a praça talismã de Tomás e onde o matador tem agendada uma corrida em Julho, lamenta o acidente. "José Tomás é um atractivo económico formidável. Quando ele toureia na Monumental, a praça enche--se com 17 mil pessoas." Fazendo as contas a 70 euros por bilhete, a praça catalã perde 1,2 milhões de euros. Mais que isso, numa altura em que o governo autonómico da Catalunha discute a proibição das touradas, perder Tomás é "perder argumentos a favor da festa", sublinha Matilla ao "Expansión".

José Tomás, o homem que nasceu em Agosto de 1975 em Galapagar, zona de serra que envolve Madrid, é capaz de mover multidões e milhões - tem cachets que chegam aos 2 milhões de euros por corrida. El diestro de Galapagar reinventou o toureio no seu estilo elegante, imóvel e dramático, uma arte que lhe garantiu um lugar junto dos "apóstolos": Joselito, Belmonte, Manolete ou António Ordóñez. Imóvel mesmo quando os pítons do touro se aproximam, Tomás é aquilo a que o seu amigo Albert Boadella, intelectual catalão, chamou "um toureiro de corpo inteiro".


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