Arte

Varett. O artista-mistério que se infiltra nos museus

Publicado em 27 de Abril de 2010   
Longe dos olhares da segurança, um pintor português deixa os seus quadros nas paredes dos museus públicos. O i acompanhou-o numa acção clandestina
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A conversa de circunstância serve apenas para acalmar os nervos. Passa pouco das quatro da tarde e Varett está na entrada do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Prepara-se para mais uma acção clandestina: paga o bilhete de €5 enquanto a funcionária lhe explica o que pode encontrar nos dois andares da galeria. Ele finge que ouve, mas está mais concentrado no que carrega debaixo do braço direito, escondido entre um maço de folhas brancas. É um homem insuspeito: sexagenário simpático, figura pacífica, que escolheu uma tarde soalheira para fazer uma visita ao museu. Horas antes, as palavras saíam-lhe atropeladas. "Já sinto a adrenalina", dizia. Lá dentro, depois de se infiltrar num grupo de excursionistas, livra-se do seu quadro: uma pintura em tamanho A5, com uma moldura de cartão. No verso, uma mensagem para a ministra da Cultura.

"Para quando um espaço fora do circuito dos monopolistas da arte?" Esta não foi a primeira vez que Varett expôs clandestinamente em museus públicos. Há três anos entrou no Museu Colecção Berardo para colar uma das suas obras. O método é simples: observa o espaço, encontra ângulos mortos onde as câmaras de segurança não filmam e deixa as suas pinturas na parede. Antes disso, fala com os seguranças. "Faço perguntas e eles ficam descontraídos."

Desta vez não é preciso. O artista-mistério começa por se misturar com um grupo de estrangeiros que fazem uma visita guiada. Ouve atentamente as explicações da guia, enquanto escolhe o melhor local para deixar um quadro. Por breves segundos, fica para trás. É o sinal: abre rapidamente o maço de folhas, retira a fita adesiva dupla já colada no verso e deixa um acrílico na parede. Menos de um minuto depois está de regresso ao grupo. Ninguém o viu. 

PINTOR FILÓSOFO 

Há uma regra de ouro que Varret cumpre com rigor: nunca voltar ao local da acção. Mas antes de abandonar o espaço, ainda tem tempo para fazer fotografias e uma filmagem com um telemóvel. Depois, dá mais uma volta e desce tranquilamente as escadas. Sorri para os funcionários e sai pela porta principal. Cá fora, mete-se num taxi e quinze minutos depois está de regresso a casa. De charuto na boca.

No interior do museu, a obra ficaria exposta pelo menos durante mais de duas horas. E houve quem parasse para a observar. "Nada Posso", um acrílico pintado em 2010, não destoa minimamente do local onde ficou afixado. Nem a própria guia do museu, que debita entusiasmada as gloriosas conquistas de Portugal, deu pela presença estranha na parede.

Varett é o nome de código de um ex-professor de filosofia. Nasceu nos Açores há 69 anos, numa época conturbada. "Ponta Delgada era uma cidade de castas, de escravatura até. A partir de certa altura coloquei-me na marginalidade", justifica, entre baforadas de fumo. A pintura acompanha-o desde sempre. "É a minha sombra. Mas nunca tentei reproduzir o real, transmito-o apenas pelo meu olhar. Se decidir pintar uma praia, o mais certo é sair-me uma mulher."

O elemento feminino é omnipresente na sua arte. No pequeno apartamento onde vive, para os lados de Benfica, elas não lhe povoam apenas a imaginação: estão em todo o lado, preenchem-lhe as paredes da casa, em dezenas de quadros desalinhados. A sua verdaderia mulher, com quem está casado, vive nos Açores: "Vem visitar-me, mas prefiro viver sozinho. Não gosto que mexam nas minhas coisas."

Varett já pintou mais de 900 telas mas não gosta que lhe chamem pintor. "Sou pincelista. Não obedeço a qualquer regra, as minhas pinturas são o caos." Mesmo assim, o professor, actualmente na reforma com diálogos filosó ficos publicados, fez várias exposições. "Às vezes pedem-me para expôr em câmaras municipais. E eu digo-lhes: 'Façam o que quiserem, mas não contem com a minha presença.'"

Quando chegou a Lisboa pela segunda vez - já tinha vivido na capital nos anos 70 -, Varett decidiu entrar em contacto com algumas galerias. Não teve sorte e ouviu quase sempre a mesma resposta: "Só expomos artistas conhecidos." Noutra altura, quando procurava uma exposição de Mário Cesariny, resolveu falar o director da galeria. "Mandei um e-mail a apresentar-me . E cinco imagens de quadros meus. Disse-me que conhecia o meu trabalho e pediu-me para lhe dar os pormenores técnicos. Tive de lhe dizer que às vezes até pintava com a língua", recorda com gargalhadas sonoras.

Foi por isso que decidiu expôr clandestinamente. Não para vender - diz que nunca quis fazer negócio com os seus quadros - mas por uma questão quase ideológica: "São museus públicos, de alguma forma sinto que aquilo é meu. É quase como ver um tipo qualquer a passear num carro do Estado. Então ando eu a pagar os meus impostos para aquele gajo ter um morotista para ir buscar o filho à escola?"

Varett já "expôs" nos museus do Chiado, Gulbenkian e Centro Cultural de Belém. Numa dessas incursões deixou uma carta a Joe Berardo a propor-lhe abrir espaços para artistas menos conhecidos. Mais uma vez, sem resposta. Nada que o preocupe. "Não fosse o medo de viajar, já tinha ido ao Prado." Afinal é quase um acto de generosidade: "Não cometo crimes, ofereço quadros."



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