PRIMEIRO PLANO
Um português em Londres
por Jaime Nogueira Pinto, Publicado em 27 de Abril de 2010
Há pessoas que vivem intensamente a sua vida, sem abdicarem dos seus princípios. Luís Maria Pinto de Soveral é um exemplo, agora em livro
Luís Maria Pinto de Soveral nasceu a 28 de Maio de 1851 em São João da Pesqueira e morreu a 5 de Outubro de 1922, em Paris. Viveu o tempo dos inventos e das máquinas que forjaram as sociedades modernas: o automóvel, o avião, o telefone, a lâmpada eléctrica, a TSF, o cinema.
Por cá esses anos também foram decisivos. Começaram na Regeneração e acabaram em vésperas do Estado Novo; foram da primeira modernização e criação de um mercado nacional, integrado pelos transportes e pelas comunicações, à ocupação do Ultramar, às crises do constitucionalismo e à crise permanente e ao fim da Primeira República.
Literariamente, passámos do romantismo de Herculano, Garrett e Camilo para o Orfeu de Almada e Pessoa, tendo pelo meio Oliveira Martins, Eça e a Geração de Setenta.
Luís de Soveral foi um homem deste tempo europeu e português, que viveu bem no centro das coisas e das decisões. Um espécime raro - um português com mundo, com sentido do bem público e que, podendo ter sido mais um "convidado ocioso da existência", serviu os interesses do país nessa belle époque cheia de complicações e riscos.
Diplomata, esteve em posto em Viena, Berlim e Madrid, as capitais do velho império dos Habsburgo, do novo império de Bismarck e do poder peninsular, que nunca deixara de olhar de soslaio o rectângulo independente à beira-mar que lhe escapara. Depois foi para Londres, onde pelo brilho social e pela amizade do príncipe de Gales se tornou uma figura central da exclusiva sociedade britânica. O Ultimato pôs toda esta relação em causa, e Soveral foi, com D. Carlos, um dos reconstrutores da aliança. Mas 20 anos depois a monarquia pagaria com o fim as contas da crise.
Em Portugal fez a vida de um homem da sua condição e formação - entre a especulação literária e filosófica, a intervenção política e os clubes chiques do Chiado, no clima da Geração de Setenta, dos Vencidos da Vida. Foi por ano e meio ministro dos Negócios Estrangeiros, mas o seu papel decisivo será outra vez em Londres, ao fazer gorar um entendimento germano-britânico para partilhar Angola e Moçambique. Soveral foi a "mão invisível" que, apoiada pelo rei D. Carlos e através do príncipe de Gales, ajudou a desmontar o conluio e a garantir os direitos portugueses.
Testemunhou o dia terrível do regicídio, que teria como consequência lógica a queda da monarquia. No exílio continuou a acompanhar o rei D. Manuel II, a quem aconselhou, nem sempre da melhor forma, nos meandros complexos da política monárquica perante a República. Mas foi fiel aos príncipes exilados. Morreu em Paris, em 1922.
A vida deste homem é agora contada por Paulo Lowndes Marques, numa biografia bem fundamentada e bem escrita, num estilo que mistura a análise geopolítica com o fait divers divertido e esclarecedor. Um livro excelente.
Professor universitário
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Artigo: Um português em Londres
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