Reino Unido

Nick Clegg desafia Labour: coligação, só com ele à cabeça

Publicado em 26 de Abril de 2010   
Lib-Dems querem ditar as regras de uma coligação de governo com o Labour. A onze dias das eleições, Brown evoca Deus
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Nick Clegg revelou ontem pela primeira vez estar disponível para entrar num governo de coligação com o Labour. Contudo, para que fique claro, e caso as sondagens que relegam os trabalhistas para terceira força política se traduzam em votos no dia 6 de Maio, quem dita as regras da aliança "LibLab" é ele: "Acredito que um partido que fica em terceiro - com tantos milhões de eleitores a decidirem abandoná-lo - perde as eleições de forma espectacular e por isso não pode pedir o lugar de primeiro-ministro deste país", sustentou ontem o líder dos democratas--liberais à BBC. Dito de outro modo, se os trabalhistas querem mesmo manter algumas cadeiras no governo, o preço a pagar é muito elevado: o lugar de Gordon Brown. "É ridícula a ideia de um partido reivindicar a liderança do N.o 10 ficando em terceiro lugar." Assim fala um homem que, até há 12 dias, nos testes de notoriedade entre os britânicos, era associado à liderança dos democratas-liberais, ao político que confessou ter dormido com "menos de 30 mulheres" e pouco mais. Mas isso foi antes da dupla ronda de debates televisivos entre os candidatos à liderança do governo. Neles, o telegénico Clegg mostrou frescura política, propostas ousadas, e, graças ao descontentamento dos britânicos com os dois grandes partidos, baralhou totalmente os cálculos eleitorais.

A ascensão do jovem (43 anos) e desconhecido líder dos Lib-Dems foi de tal modo meteórica que Clegg deixou de pensar pequeno - rejeita a possibilidade de ser um "kingmaker" num cenário de parlamento sem um partido com maioria absoluta - e já se dá ao luxo de vestir o fato de primeiro-ministro num partido que não conhece o poder desde 1922. Nas cúpulas do Labour, há já quem pense em substituir Gordon Brown por Alan Johnson ou David Miliband num cenário de "coligação progressiva" com os Lib-Dems. Também no partido conservador ninguém descarta uma coligação de governo com Clegg. David Cameron, o líder torie, deixou ontem a porta aberta a essa possibilidade quando mostrou proximidade com Clegg no tema da reforma política.

Gordon Brown, primeiro-ministro filho de um padre escocês, sente que está a perder o pé e fez um apelo dramático às bases do partido. "Se acreditam em justiça, lutem por ela porque um futuro mais justo não acontece por acaso. Vão para a rua e lutem, lutem, uma e outra vez, lutem não pelo futuro do nosso partido, mas pelo futuro do nosso país", disse na zona oriental de Londres, depois de ter apresentado o seu manifesto ambiental.

Pressionado pelas últimas sondagens que dão ao Labour o pior parcial dos últimos seis meses (28%), Brown trouxe Deus para o campo da batalha política a onze dias das eleições. Num testemunho emotivo publicado no "The Independent", Brown apresentou a sua própria versão da célebre frase de Benjamin Franklin - "Deus ajuda aqueles que se ajudam a si mesmos" - a propósito da proposta conservadora que prevê o levantamento do imposto sucessório sobre todas as propriedades de valor igual ou inferior a um milhão de libras. "Como é que pode ser uma prioridade dar a pessoas que já têm tanto? Isso seria Deus ajudar aqueles que já foram ajudados."


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