Fotografia

Daphné Anglès. "Os fotojornalistas têm de ser mais criativos e autónomos"

Publicado em 26 de Abril de 2010   
A coordenadora europeia da fotografia do "New York Times" fez parte do júri do prémio Estação Imagem/Mora e falou com o i
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Daphné Anglès trabalha há 20 anos com fotojornalistas de toda a Europa. É a "autoridade" europeia de fotografia do "The New York Times" há duas décadas e secretária do World Press Photo 2010. Passou três dias em Mora, no Alentejo, a ajudar a eleger os vencedores do Prémio Internacional de Fotojornalismo Estação Imagem/Mora - único prémio de fotojornalismo actualmente atribuído em Portugal. A coordenadora de fotografia que não é nem nunca foi fotógrafa tem uma certeza: o espaço para fotorreportagem nos jornais e nas revistas está condenado. Em conversa telefónica com o i, não o disse com tom derrotado. A fotorreportagem no papel pode estar moribunda, mas o multimédia e "a internet oferecem possibilidades excelentes." "O problema é que a maior parte dos fotógrafos ainda não entendeu isso", remata. O mais difícil no trabalho de um fotojornalista - e o que faz Daphné Anglès premiar uma foto e não outra - é captar uma fotografia "que fique na cabeça das pessoas".

Em 20 anos, o que mudou no fotojornalismo?

É uma questão que tento há muito tempo responder. Não é uma surpresa o que vou dizer, mas penso que a maior mudança veio com a era digital, que transformou por completo a maneira de os fotógrafos trabalharem. Em primeiro lugar, o tempo. Os fotógrafos têm muito menos tempo para trabalhar do que tinham antes, o que os obriga não só a serem muito mais rápidos, mas também a pensar os trabalhos de maneira diferente. A mudança mais recente é que os fotojornalistas já não trabalham tanto para imprensa como antes. O orçamento para fotografia nos jornais sofreu um corte enorme. Eles têm de encontrar outros meios de fazer e expor o seu trabalho. Em vez de trabalharem com um contrato, viagens pagas, propostas de editores e de directores, têm de arranjar formas de fazer reportagem por si mesmos. Precisam de ser mais criativos e mais autónomos e têm de aprender a empurrar a carreira com as mãos.

É mais difícil fazer fotorreportagem hoje?

Não acho que seja mais difícil, acho só que os fotógrafos têm de ser mais focados. Há menos tempo e menos espaço nos jornais para fotorreportagens. Por isso, se querem publicar na imprensa, têm de estar preparados para contar a história numa fotografia. Isso é o ideal, porque, deixemo-nos de ilusões: os jornais e as revistas não têm espaço para mais. E se não têm hoje, dificilmente voltarão a ter. Por outro lado, existe a internet, que é um meio com múltiplas possibilidades, ainda mal utilizadas. O fotógrafo deve aprender a jogar com isso: ok, o jornal ou a revista só tem espaço para uma ou duas fotografias, mas tenho aqui um apanhado delas que podem ir para um slideshow no site. O papel é menos importante como meio de massas e a internet oferece possibilidades excelentes. O problema é que a maior parte dos fotógrafos ainda não entendeu isso, parou no tempo ou vê a internet como um meio menor, com menos requinte, para expor o seu trabalho.

Nestas condições, trabalhar como freelancer é mais fácil?

É mais fácil, no sentido em que se tem mais liberdade. Mas ser fotojornalista é um trabalho de desafio, que exige muita persistência, sobretudo se se for freelancer, porque implica ir aos sítios, arranjar as ideias, arranjar maneiras de viajar, de produzir a história, encontrar um lugar onde publicar ou uma galeria para expor. É uma questão de personalidade, de carácter e também do grau de criatividade e de autonomia que se tem como fotógrafo.

Que achou dos trabalhos que concorreram a este prémio de fotojornalismo "Estação de Imagem/Mora"?

A qualidade geral é óptima. Só fiquei desapontada por não concorrerem mais trabalhos de países de expressão portuguesa. A maior parte dos trabalhos candidatos deste ano são de fotógrafos portugueses a viver em Portugal. Acho que o concurso ganharia se no próximo ano chegassem mais trabalhos de África, por exemplo. A origem dos fotógrafos pode tornar o concurso mais variado e rico.

O que muda na vida de um fotojornalista depois de receber um prémio?

Não conheço bem o cenário do fotojornalismo em Portugal mas, em geral, um prémio traz, acima de tudo, nome, reconhecimento e prestígio. Além de que é sempre uma recompensa e um empurrão para os fotógrafos. É a diferença entre ser-se mais um a fotografar "com jeitinho para a coisa" e aquele em quem mais gente repara porque venceu aquele prémio com aquela fotografia que lhes ficou na cabeça.

Trabalha há 20 anos com alguns dos melhores do mundo, como coordenadora de fotografia do "The New York Times" na Europa, e agora teve a oportunidade de ver uma série de trabalhos de fotojornalistas portugueses. Pelo que viu, que conselhos daria?

O mais importante é pensar fotograficamente e encontrar um equilíbrio entre os aspectos técnicos da composição, o conteúdo e a emoção. Às vezes falta isso. Os fotojornalistas têm, muitas vezes, ou a febre do instante ou a febre da técnica. O difícil é criar uma fotografia que fique na cabeça das pessoas, que as faça pensar. Não é isso que distingue um bom filme ou um bom livro? Com a fotografia é igual: o mais importante é a emoção. A melhor fotografia fotojornalística é aquela que nos emociona.

Uma boa foto precisa obrigatoriamente de ter emoção?

Não só, mas de emoção precisa sempre. O fotógrafo deve procurar o instinto e encontrar um equilíbrio entre aquilo que vê e aquilo que sente quando está a ver.

Qual é exactamente a sua função no "New York Times"?

Não trabalho à secretária em Nova Iorque. Estou à frente das histórias feitas pelos correspondentes. Escolho os fotógrafos para produzirem reportagem - escolho-os de acordo com a localização geográfica e o talento, selecciono o trabalho e envio-o para Nova Iorque com a garantia de que chegam lá as melhores fotografias daquele fotojornalista.

Alguma vez considerou viver como fotógrafa e não como coordenadora de fotografia?

Nem sequer concebo essa hipótese porque não sou fotógrafa! Fora de Portugal isso não é uma regra. A maior parte dos coordenadores e editores de fotografia que conheço são pessoas com grande sensibilidade para a fotografia, mas só uma pequena percentagem já fotografou ou fotografa. E também já conheço quem faça um curso de fotografia e não queira seguir a carreira de fotógrafo, mas de editor. Mais importante do que já ter fotografado, acho que é ter feeling para a fotografia.


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