Música

Deolinda. Num fado sempre pop - vídeo

Publicado em 26 de Abril de 2010   
Em entrevista, o grupo falou sobre "Dois Selos e um Carimbo", sucessor de uma estreia transformada em fenómeno de sucesso
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Não são fado mas podiam ser. Não cantam a melancolia de um Portugal cinzento, mas os portugueses estão na sua mira. Não são a pop colorida dos Beatles, mas assumem sem rodeios a influência dos quatro fabulosos. Não usam fórmulas mágicas mas colhem elogios dos 8 aos 80. Os Deolinda são um fenómeno no caldeirão da música portuguesa. "Dois Selos e Um Carimbo" assinala o seu regresso aos discos. Mas não só: é uma "fuga ao auto-plágio", às formas que estiveram por trás das bem sucedidas "Fon Fon Fon" ou "Movimento Perpétuo Associativo". Se o conseguirão ou não, só no palco o saberemos. Fica, por agora, uma certeza: a Deolinda continua portuguesa em toda a sua genuinidade. Suburbana, benfiquista e de palito na boca.

Quando entraram em estúdio para gravar o segundo disco, os Deolinda vinham de uma série de concertos que durava há quase dois anos - praticamente desde o seu registo de estreia. Pelo caminho, entre quartos de hotel, camarins, quilómetros de auto-estrada e testes de som, foram surgindo as canções do segundo trabalho. "Uma necessidade que se sacia em palco", descrevem à mesa da sua editora, a EMI. Mas é no estúdio que registam o "momento" a que chamam disco.

Não há grandes obras de engenharia sonora ou artimanhas computorizadas. É um disco gravado sem rede. Nem podia ser de outra forma: "Costumamos ensaiar sem qualquer tipo de amplificação. No disco, gravámos todos ao mesmo tempo. Uma opção que tem a ver com a emoção inerente de passar estas músicas para um disco. Há flutuações de tempo, sons da nossa respiração ou coisas bizarras como o barulho de um estômago a ranger".

Talvez seja assim, da forma mais transparente possível, que os quatro músicos conseguem encontrar a definição do que é "ser Deolinda". Uma procura constante, "uma sensação difícil de explicar", o resultado de um casamento a quatro: "É assim que obtemos a resposta uns dos outros. Não dá para falsear", explica Ana Bacalhau, a mulher que empresta a voz ao grupo.

Se para eles é difícil definir a essência do "ser Deolinda", para outros é uma barreira ultrapassável: há quem os cole ao fado, à canção tradicional portuguesa ou à pop. Eles contrapõem com o título do primeiro disco: "No fundo, 'Canção ao Lado' espelha um pouco essa dificuldade de nos localizarmos esteticamente", afirma Pedro Leitão. "Deolinda nasce 'não-fado', é o produto de vários cruzamentos."

Rótulos à parte, o fenómeno é inegável: são transversais - tanto enchem uma qualquer praça alentejana como o recinto de uma queima das fitas - e não conhecem fronteiras. Lá fora chamam-lhes os novos Madredeus ou os herdeiros de Amália Rodrigues. "Até já disseram que éramos indie pop, seja lá o que isso for", brinca Ana Bacalhau. "Talvez seja o ritmo", arrisca o contrabaixista Zé Pedro Leitão para justificar os adolescentes que ocupam as primeiras filas dos seus concertos. "Ou as letras num português contemporâneo. Poemas sem o peso de uma linguagem mais arcaica", acrescenta a vocalista.

Ao segundo disco, o sucesso pode transformar-se em responsabilidade acrescida: há uma expectativa inevitável e um grau de exigência elevado. "Lidamos muito bem com essa expectativa. Pressão? Acho que essa ideia se foi diluindo com o trabalho, à medida que surgiram estas canções novas, sempre com a sensação de que tínhamos bom material para trabalhar", diz o compositor Pedro da Silva Martins.

Além disso, a sua fonte de inspiração parece inesgotável. Falamos de Portugal, "de um lado iconográfico e simbólico muito rico". E nesse aspecto, dizem, "Deolinda continuará sempre com a mesma personalidade". "Dois Selos e um Carimbo" não foge ao retrato divertido de um país cheio de personagens caricatas. "A actualidade também nos ajuda bastante, embora nem sempre nos deixe bem dispostos", assume o compositor e letrista.

Depois da Damaia Embora preservem a sua identidade, os Deolinda surgem neste disco com os horizontes geográficos mais alargados. Já não são (apenas) o grupo que nasceu no Restaurante Gabizé, na Damaia de Cima. Nem tão pouco o projecto paralelo que ensaiou no Magoito, entalado entre as agendas apertadas dos quatro músicos com vidas atribuladas. Depois de um registo de estreia com 40 mil cópias vendidas e mais de duzentos espectáculos ao vivo, a Deolinda afirmou-se muito para lá de Portugal. Mas, mais do que isso, definiu um estilo muito próprio. Com dois selos e um carimbo.


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