Quando os mercados financeiros liberalizados se metem por caminhos tortuosos, as primeiras economias a senti-lo são as dos países periféricos
Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia e um dos economistas convencionais que têm investigado o problema da assimetria de informação e de poder a que os mercados são tão propensos, pôs, em entrevista ao "
El País", o dedo na ferida europeia: "O problema é evidente, mas a lentidão e a debilidade da resposta põem em causa a sobrevivência do euro. Os mercados não são propriamente uma fonte de sabedoria: são predadores, muitas vezes são estúpidos, são completamente imprevisíveis" e "podem provocar estragos".
Qual é o problema e quais são os estragos? O problema é institucional. Os
mercados, todos os mercados, têm de ser limitados e enquadrados politicamente para que as suas tendências autodestrutivas sejam contidas e as suas virtudes vislumbradas. O problema europeu tornou-se claro nos últimos anos: o
euro instituiu-se com um excesso de construção de mercados financeiros liberalizados, a que correspondeu um défice de construção de mecanismos de solidariedade democrática: um orçamento comunitário que pesa menos de 1% do
PIB da
UE ou um banco central que pode ajudar os
bancos, mas que deixa os estados, cujos défices aumentaram para evitar a repetição de uma grande depressão, à mercê dos humores dos especuladores.
Esta engenharia política não é neutra nos seus estragos. As periferias europeias são as primeiras a senti-lo, e, na ausência de resistência social organizada, o único contrapeso à força dos especuladores e dos rentistas que capturam os estados e reduzem a democracia a uma ficção, só resta o desastre desorganizado: erosão do estado social, cortes salariais, aprofundamento da
recessão e mais
desemprego.
Esta economia sacrificial é a tradução política da convenção contagiosa "países do Sul da Europa" que se formou nos mercados financeiros internacionais, que torna muito mais oneroso o financiamento dos estados quando estes países mais dele necessitam e que, qual profecia auto-realizada, torna mais plausível um cenário de incumprimento, de "bancarrota".
Stiglitz aponta os países do Sul como os elos fracos da UE. Fá-lo porque sabe que é difícil politicamente, no actual enquadramento institucional, travar as convenções que guiam os mercados financeiros. Na ausência de
reformas na arquitectura do
governo económico da UE que superem esta ditadura dos mercados, o fim do euro poderá ser a profecia seguinte, a convenção que se forma nos mercados, até há pouco tempo tão incensados pela opinião convencional. Está na altura da política com rasgo, e só a solidariedade de um movimento social com escala europeia pode travar o desastre iminente. A pergunta de Jean Monnet - será possível termos um mercado comum sem políticas sociais, monetárias e macroeconómicas federais? -, feita em 1955, tem uma resposta: não...
Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
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