PRIMEIRO PLANO

A reforma adiada do mercado de trabalho

por Ricardo Reis, Publicado em 24 de Abril de 2010   
Muita coisa está mal no mercado de trabalho em Portugal, de patrões a sindicatos, passando pelos próprios trabalhadores
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Há décadas que muitos recomendam que o mercado de trabalho em Portugal seja mais flexível. Aponta-se que, se é impossível despedir um trabalhador, as empresas vão recear contratar e o desemprego será maior. Referem-se as analogias entre forçar um trabalhador e uma empresa a ficarem juntos e obrigar uma mulher e um homem a ficarem casados contra a sua vontade. Notam-se os dados que mostram que as economias com mercados de trabalho mais flexíveis são mais produtivas, mais ricas, e que nelas os episódios de desemprego são mais curtos. Alerta-se para o receio de uma mudança tecnológica ou da concorrência internacional que ponha pessoas de 45 anos no desemprego, uma tragédia num mercado de trabalho rígido que não cria as oportunidades que surgem num mercado flexível. Realça-se o conflito de gerações, entre os "insiders", mais velhos, que têm emprego garantido e mais bem pago, e os jovens "outsiders", que saltam de recibo verde em recibo verde.

No entanto, pouco muda. Porque será? Uma das possibilidades é que os argumentos acima estão todos errados. Outra hipótese é que qualquer mudança prejudicará os interesses instalados que põem o seu bem-estar à frente do bem comum. Por exemplo, os "insiders" do mercado de trabalho têm toda a vontade de proteger as suas coutadas, receando que as pessoas novas ponham a nu a sua baixa produtividade. Outro exemplo são os sindicatos, que defendem sempre os interesses dos seus membros, que têm emprego, e não o interesse dos desempregados. Um último exemplo são algumas empresas que preferem um mercado rígido, onde a ameaça de despedimento é mais assustadora para os trabalhadores.

O italiano Alberto Alesina intervém há décadas no debate público em Itália, convicto de que a persistência um dia acabará por derrubar estes lóbis. Recentemente, resignado, propôs uma nova possibilidade.

As pessoas em Portugal e Itália escolhem viver muito perto do local onde nasceram. 40% dos italianos casados moram a menos de um quilómetro da casa dos pais. Isso implica que uma empresa de móveis numa pequena cidade italiana possa ser o único emprego para um carpinteiro. Por isso pode usar este poder para pagar menos aos trabalhadores do que aquilo que eles produzem. Se assim é, os trabalhadores apoiam leis que trazem rigidez ao mercado de trabalho para lhes dar a eles poder nesta relação. Mas uma das consequências destas leis é que mudar de cidade é uma experiência penosa, pois envolve passar meses à procura de emprego e perder algum do apoio das redes familiares. Logo, justifica-se viver perto dos pais.

Concluindo, viver toda a vida no mesmo sítio, a trabalhar para a mesma empresa, e com um mercado rígido e ineficiente, pode ser o resultado, embora o bem-estar de todos fosse maior se os mercados fossem flexíveis e a mobilidade maior. Só com um grande choque se pode escapar desta armadilha.

Professor de Economia, Universidade de Columbia

rr.ionline@gmail.com Escreve ao sábado


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