Visto de fora

Saqueadores sofisticados

por Paul Krugman, Publicado em 23 de Abril de 2010   
A criação de produtos financeiros com a intenção de os fazer cair mais tarde, agora associada ao Goldman, não fez a crise mas agravou-a. A reforma do sector tem de impedir este tipo de fraude
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Em Outubro passado vi uma banda-desenhada de Mike Petersin em que um professor pedia a um aluno que construísse uma frase contendo o tempo verbal "sacks", de saquear, pilhar. O aluno respondeu: "Goldman Sachs."

Nem de propósito, a semana passada, a Securities and Exchange Commission acusou os elegantes tipos da Goldman de praticarem o que não passa de saques de colarinho branco.

Estou a usar o termo "saque" no sentido que lhe atribuem os economistas George Akerlof e Paul Romer num relatório de 1993 intitulado "Looting: The Economic Underworld of Bankruptcy for Profit". Esse documento, escrito no período que se seguiu à crise dos bancos comerciais, os savings and loans, da era Reagan, afirmava que muitas das perdas ocorridas nessa crise resultavam de fraude deliberada. Passar-se-á o mesmo com a actual crise financeira?

A maioria dos debates acerca do papel da fraude na presente crise tem-se centrado em dois tipos de impostura: os empréstimos predatórios e a comunicação incorrecta dos riscos. Não há dúvida que muitas pessoas foram convencidas a contrair empréstimos complexos e dispendiosos cujas implicações não compreendiam - um processo facilitado pela actuação dos reguladores federais da era Bush, que, por um lado, não conteve a concessão abusiva de empréstimos e, por outro, impediu os estados de tomarem medidas próprias. Em larga medida, quem concedia empréstimos subprime não ficou com o correspondente título de dívida na mão. Em vez disso, vendeu os empréstimos a investidores, em alguns casos não podendo deixar de saber que o potencial de perdas futuras era maior do que imaginavam as pessoas que compravam esses empréstimos (ou títulos cobertos por tais empréstimos).

Aquilo a que agora estamos a assistir são acusações de um terceiro tipo de fraude.

Há muito que sabemos que o Goldman Sachs e outras instituições similares comercializavam títulos cobertos por hipotecas, apesar de procurarem obter lucros apostando que o valor desses mesmos títulos iria cair. Todavia, essa prática, embora moralmente condenável, não era ilegal. Mas agora a SEC está a acusar o Goldman de ter criado e comercializado títulos deliberadamente concebidos para caírem, de modo que um cliente importante pudesse lucrar com essa queda. Ora a isso eu chamo saque.

E o Goldman não é a única instituição financeira a ser acusada de o fazer. De acordo com o website de jornalismo de investigação ProPublica, detentor de um prémio Pulitzer, vários bancos ajudaram a comercializar investimentos destinados ao fracasso por conta do hedge fund Magnetar, que apostava nesse fracasso.

Então qual o papel da fraude na crise financeira? Não foram os empréstimos predatórios nem a venda de hipotecas com falsas expectativas que causaram a crise. Mas não há dúvida que a agravaram, quer por terem ajudado a inflacionar a bolha imobiliária, quer por terem criado um conjunto de activos que se transformariam inapelavelmente em bens tóxicos assim que a bolha rebentasse.

Quanto à alegada criação de investimentos destinados a caírem, é possível que tenham ampliado as perdas dos bancos que estavam do lado perdedor desses negócios, agravando a crise bancária que transformou a bolha imobiliária numa catástrofe que atingiu a totalidade da economia.

A questão fulcral é saber se uma reforma financeira como a que está presentemente a ser debatida poderia evitar, no todo ou em parte, esse tipo de fraude que parece ter prosperado na última década. E a resposta é afirmativa.

Antes de mais, a existência de um organismo independente de protecção do consumidor poderia limitar os empréstimos predatórios. Outra disposição da proposta de lei do Senado, que exige que os credores retenham 5% do valor dos empréstimos que concedem, limitaria a prática de conceder empréstimos tóxicos e vendê-los rapidamente a investidores desavisados.

Já não é tão claro que as propostas para a reforma dos produtos derivados - que envolve sobretudo a exigência de instrumentos financeiros como os credit default swaps serem transaccionados abertamente e com transparência, como se de vulgares acções e títulos se tratasse - evitariam os alegados abusos do Goldman (embora, provavelmente, evitassem que a seguradora AIG se desmoronasse e pedisse um resgate federal). O que se pode dizer com certeza é que a redacção final da reforma financeira deve ser de molde a evitar este tipo de saques - em particular, deve bloquear a criação de "CDO sintéticos" [obrigações de dívida com colateral], cocktails de credit default swaps que permitem que os investidores apostem fortemente em activos que não são de facto propriedade sua.

Todavia, a principal lição moral a extrair das acusações feitas ao Goldman não tem a ver com as minúcias da reforma; tem a ver, sim, com a necessidade urgente de mudar Wall Street. A crer nos grupos de pressão do sector financeiro e nos políticos do Partido Republicano que têm andado de conluio com eles, poder-se-ia pensar que tudo ficará resolvido desde que o governo federal prometa não resgatar mais nenhuma empresa. Mas isso é completamente errado - e não só porque tal promessa não seria credível.

A questão está no facto de grande parte do sector financeiro se ter tornado uma máfia, um jogo em que um punhado de pessoas têm salários principescos para enganarem e explorarem os consumidores e os investidores. E se não pusermos um travão a essas práticas essa máfia sobreviverá.

Economista Nobel 2008

Exclusivo i/The New York Times


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