James Watson diz assim mesmo na página 21 desta edição: as pessoas não nascem todas iguais. Sabe do que fala. Aos 34 anos ganhou o Nobel da Medicina por ter quebrado o código do ADN e hoje, aos 81, conhece o corpo e as células que o formam como ninguém. Mesmo assim, aprendeu a dizer com cautela esta verdade: "As pessoas vivem confortáveis com o conceito de termos nascidos todos iguais, mesmo sabendo que ele não é verdadeiro."
Thomas Paine não era médico, mas também entrou na história por chegar à mesma conclusão que Watson - as pessoas não são todas iguais. Paine, um britânico que foi pai fundador da América, escreveu em 1791 um livro com nome sugestivo: "Rights of Man". Nele falava no Estado de Bem-Estar (por cá traduzido como Estado-Providência) e defendia que deveria usar-se o poder da política e das administrações para corrigir o jogo do mercado. Paine não conquistou o Nobel, mas marcou uma tendência que jamais se alterou: as pessoas aceitam a intervenção do Estado para corrigir as regras do jogo.
O que James Watson nos diz, porém, é que as pessoas aceitam essa correcção porque consideram que são iguais - ora, tendo as mesmas oportunidades, pensam, poderiam chegar tão longe como quaisquer outras. Não chegam, diz Watson. E dizia ontem o i, num artigo sobre o livro de Chris Woodhead, que a inteligência é genética: genes fracos em inteligência geram pouca inteligência. E Woodhead sublinha: de nada valem todos os milhões que se investem em educação porque as crianças pouco inteligentes não se safam. Em ano de eleições, estas notícias assustam.
Há dias, o primeiro-ministro português dizia - a propósito de uma senhora com mais de 50 anos que voltou à escola com o programa Novas Oportunidades - que para um governante de esquerda estas histórias de pessoas que mudam a sua sina são compensadoras. Se James Watson tiver razão, e Chris Woodhead também, essa fé de Sócrates de pouco vale - as pessoas mudam, parece, quando são geneticamente capazes de o fazer. E, se assim for, as políticas sociais que se mantêm fiéis ao modelo de Paine (um estado que corrige as desigualdades do mercado e promete igualdade de oportunidades) estão condenadas. A ideia assusta. É o fim?
Quem viajar até ao site basicincome.org descobre uma comunidade online dinamizada por um professor da Universidade de Lovaina - Philippe Van Parijs, um homem de esquerda e muito radical. Eles têm uma proposta agressiva - a todos deve ser dado um rendimento garantido que dispensa quaisquer critérios de elegibilidade ou disponibilidade para trabalhar. Não estou certo de que tenha lido esta entrevista de James Watson, mas quem leu o livro de Parijs - "Real Freedom for All" - conhece a sua divisão da natureza humana entre loucos e preguiçosos. Será do ADN? O assunto é difícil.
Em ano eleitoral, porém, é bom que fique claro: os homens não nascem todos iguais e por isso a política social igualitária de nada lhes serve. E, diga-se, existem alternativas.




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