PRIMEIRO PLANO
Nietzsche, Freud, Marx
por Paulo Tunhas, Publicado em 21 de Abril de 2010
Freud e Nietzsche são autores incompatíveis com os costumes contemporâneos, que buscam a uniformização de tudo
Nos meados da década de 70 do século passado, um adolescente que pretendesse penetrar os arcanos da política, do sexo e da moral ia quase fatalmente parar a Marx, Freud e Nietzsche. Ou então a derivados, como Reich ou Marcuse - Bataille e Debord para espíritos mais sofisticados. Não pretendo que o resultado fosse esplêndido; muito pelo contrário. Saía dali uma salada próxima da ininteligibilidade, mas que possuía, estranhamente, alguma coerência. Lembro-me de um amigo trotskista, expondo a sua filosofia da história sob forma resumida, declarar em público que os proletários praticavam o acto por necessidade enquanto os burgueses o faziam por prazer. Havia, portanto, que elevar a condição do proletariado ao apropriado patamar do êxtase erótico. A célebre passagem do "reino da necessidade" para o "reino da liberdade" adquiria deste modo uma inesperada justificação fisiológica.
Dei comigo, aos quase 50 anos, a tentar perceber a compatibilidade destes autores com os tempos que vivemos. Marx, sem dúvida, um Marx simplificado, está ainda presente. Não me refiro à estapafúrdia presunção da sua actualidade por causa da "crise do capitalismo", mas ao modo como uma maneira de pensar falaz, por oposições primitivas, fornece ainda, se bem que despida já das roupagens da inevitabilidade histórica da sociedade sem classes, uma ilusão de inteligibilidade do mundo. Mas, tanto quanto me é dado ver, o mesmo não se pode dizer de Freud ou de Nietzsche.
Freud é incompatível com os tempos presentes por descrever muito minuciosamente, indo do óbvio ao discutível, a perversidade que faz parte de toda a sexualidade. Claro que um pensamento deste tipo se encontra nos antípodas da contemporânea normalização de tudo, porque explicitamente põe em causa a bondade intrínseca do desejo e dá a ver abismos que são para essa normalização inaceitáveis. Nietzsche é igualmente impalatável para esta sociedade, e por razões muito próximas. A crítica da "moral judaico-cristã" levou, é claro, a que, à sombra do seu génio, se dissessem as maiores barbaridades. Mas a coisa sempre guardou, apesar de tudo, a marca de um desprezo aristocrático e justo pelo rançoso dos costumes. Nos dias que correm, o ranço - um ranço com pretensões higiénicas - e o ressentimento estão, sempre em nome da virtude, muito bem representados por quem se senta na bancada adversa à Igreja, que- rendo-a idêntica ao século a todo o custo. E nada de Nietzsche resta aí.
Hoje sabe-se que era Tocqueville quem tinha razão e que as sociedades democráticas caminham quase fatalmente para a absoluta regimentação e uniformização da vida, ameaçando a liberdade. Mas naquela altura não era o tempo, nem a idade, de o conhecer.
Professor do Departamento de Filosofia da Universidade do Porto
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Artigo: Nietzsche, Freud, Marx
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