Design Lifestyle
Ganhe coragem e mude de vida. Seja um novo rico
por Cláudia Garcia, Publicado em 20 de Abril de 2010
Trabalhar quatro horas por semana, fazer outsourcing das tarefas e optimizar o tempo. Soa bem, não soa?
Foi há mais de quinze anos. Nuno Santana não esquece os tempos em que trabalhava na Telecel, em 1994, e acordava às quatro da manhã para surfar na Ericeira antes do batente. "Voltaria a fazer tudo novamente", conta agora o empresário. Vestia fato e gravata, andava com carro e telemóvel da empresa a saltar de reunião em reunião, mas a cabeça estava sempre no mar. "Escondia a prancha no escritório, porque nos anos 90 o surf não era bem visto, e sempre que podia dava um salto à praia", diz. De agente da Telecel passou a director de vendas da ONI. Começou a prisão e o stresse.
O boom do mercado das telecomunicações garantiu ao surfista estabilidade económica para viajar e multiplicar experiências transatlânticas, mas as horas que passava trancado em reuniões de trabalho eram uma "tortura" e o dinheiro não era a solução. As condições económicas eram aliciantes - rendimento absoluto -, mas não suficientes para acabar com o "horror de querer surfar e não poder".
"Qual é a diferença entre rendimento relativo e absoluto?", questiona Tim Ferriss, o guru do New Design Lifestyle. O rendimento relativo utiliza duas variáveis: euros e tempo. E rendimento absoluto utiliza uma variável: euros. Nuno estava longe de abandonar o grupo dos trabalhadores comuns e integrar o dos novos ricos, aqueles que não adiam a vida e dispensam oito horas de trabalho por dia.
Eliminação Fazer ou não fazer? Tentar ou não tentar? "A maioria das pessoas votará não", afirma Ferriss no seu livro "4 Horas por Semana". A perspectiva do fracasso e a incerteza são uma barreira: "E o mais certo é que escolherá a infelicidade."
João Cortês Lobão dispensa a infelicidade e o "derrotismo". Faz contas aos números mas nunca aos riscos: "Estou habituado a correr riscos muito acima da média." Licenciado em Economia, começou no jornalismo. Ao fim de nove anos dirigiu-se à direcção do "Expresso", onde coordenava a economia. "Disse que estava na altura de ir fazer qualquer coisa para os EUA." Inscreveu-se no mestrado em Análise de Capitais na Universidade de Nova Iorque e mudou-se para um "apartamento minúsculo" em Manhattan, com a mulher e os três filhos. "Um amigo norte-americano queria transformar uma gestora de património, nas Torres Gémeas, numa espécie de Nações Unidas e convidou-me para a equipa."
Outsourcing A vida em Manhattan corria às mil maravilhas. O casal adoptou o lema de Ferriss para ganhar tempo: outsourcing! "Tínhamos uma lista com os contactos de cinco baby-sitters e sempre que queríamos jantar ou sair só os dois ligávamos. Passado pouco tempo ela estava à porta de casa." Encontrar uma assistente pessoal à distância é um ponto de partida para ser o comandante em vez de o comandado. "Distribuir tarefas é um teste decisivo para os novos ricos", explica Tim Ferriss. Contratar uma assistente virtual pode custar entre 75 e 300 euros entre duas e quatro semanas. O reembolso do investimento surge ao fim de 14 dias: "Ser membro do grupo dos novos ricos não significa apenas trabalhar de forma mais inteligente, mas também construir um sistema para se substituir a si próprio."
Na primeira viagem à África do Sul, em 1996, Nuno Santana, ou "Abelha", ficou abismado com o preço das pranchas de surf. "Trouxe três que me deram para o ano inteiro", recorda. No ano seguinte regressou ao país e triplicou o negócio.
"Quando voltava vendia algumas e ficava com as minhas de graça." Um dia, Nuno pensou nos rendimentos que o negócio, "levado a uma escala maior", poderia ter. E sugeriu a um amigo que arrancasse com o projecto. "Um ano depois ele já tinha assegurado 24 representações de pranchas e marcas de roupa australianas e americanas", esclarece o surfista. Mas Nuno continuava a passar mais horas no escritório e menos no mar.
"Foi uma decisão muito difícil", diz Nuno Santana, relembrando a troca da carreira na ONI pelo mar da Ericeira. "Arrisquei tudo, mas não tive medo. Perdi o horror que sentia por querer viajar e não poder, querer surfar e estar preso numa reunião." No final de 1997, Nuno propôs à Insight, a marca de roupa australiana, uma representação em Portugal. Começou com cinco clientes. "Agora são perto de cem." E pelo terceiro ano consecutivo é o melhor vendedor da Europa. O segredo é nunca pensar em horas: "Aproveito todos os minutos que parecem perdidos, como quando estou parado no trânsito, para trabalhar e pensar num negócio à escala global."
Libertação João Lobão voltou para Portugal e assumiu um cargo na administração do BES. Foi viver para Sintra e a família cresceu. "Tenho uma relação especial com cada um dos sete filhos", conta. O trabalho no banco tornou-se um estorvo para os programas familiares: "A educação é coisa que eu e a minha mulher não gostamos de fazer com outsourcing." Aproximava-se uma nova mudança. "Fiz um estudo de mercado e cheguei à conclusão que os negócios mais rentáveis, sem dependerem de subsídios, eram o vinho ou o azeite." Comprou uma herdade em Serpa, no Alentejo, plantou 500 mil oliveiras, construiu duas barragens e estruturou uma equipa que gera o negócio e na qual confia. João continua a automatizar o negócio de exportação de azeite, distribuindo tarefas e propondo soluções: "É preciso dar responsabilidade aos colaboradores e objectivos a cumprir", explicou ao i. Hoje "delicia-se" com a mulher nas cozinhas típicas do país, revê amigos em Nova Iorque e Los Angeles. E, sempre que pode, a família Lobão dá uma escapadinha até ao Dubai e ao Sul da Europa. Estabilizou? "Não sei se daqui a três anos vou estar a fazer a mesma coisa. Se calhar não, gosto de arriscar. Gosto de acções, como nos investimentos, não tenho obrigações. Invisto no futuro e partilho os momentos."
Bali "São as melhores ondas da Europa. Este lugar é único", comenta Nuno Santana enquanto olha o mar da Ericeira. Hoje trabalha um ou dois dias por semana, que não coincidam com "as melhores marés para surfar". Divide o seu tempo entre a Ericeira e as melhores praias do mundo. Bali é a sua segunda casa, mas também elege a África do Sul, Moçambique e o Sul da Europa como destinos imperdíveis do surf. Podia ter seguido uma carreira no mercado das telecomunicações e ser hoje um empresário de sucesso no meio? "Sim, podia, mas estou bem melhor assim."
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