Entrevista

Brito. "O Mourinho dedica 14 horas por dia ao jogo, ele até come futebol"

por Cláudia Garcia, Publicado em 20 de Abril de 2010   
Foi adjunto de Il Speciale durante oito anos. Conhece-o de miúdo e sabe qual é a abordagem dele aos grandes jogos, como o de hoje, com o Barcelona
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Baltemar Brito conhece como ninguém o clã Mourinho - foi treinado e manteve longa amizade com o pai Félix e fez parte das equipas técnicas do filho José em Leiria, nas Antas/Dragão e no Chelsea. Não trabalha para o Inter, mas ainda é observador do Special One. E ele explica porque o "jovem José" é mesmo o Special One.

Como foi o seu percurso como defesa-central?

Cheguei a Portugal em 1974, joguei no Guimarães, Paços, Feirense, Rio Ave, Setúbal e Varzim. Tive muitos problemas de adaptação ao clima, alimentação, família e parte afectiva. Não foi fácil. Naquela altura éramos poucos, notícias só através de cartas. Hoje em dia temos tudo: novelas, TV, comida. E Portugal está mais vivo, com mais opções.

Que jogador nunca vai esquecer?

O Cubillas, do FC Porto, dava muito trabalho, era um belíssimo jogador. Gomes, Manuel Fernandes, Futre eram os que davam mais trabalho.

E o Nené? Fazia-o sujar os calções?

O Nené era fino, inteligente. Ele só sujava os calções e corria quando necessário.

O Brito era bruto. Mito ou verdade?

Tenho 152 jogos sem lesões, sem nenhum cartão. Nunca fui faltoso. Mas quando ia aos lances era para ganhar.

Foi no Rio Ave que teve o primeiro contacto com a família Mourinho?

Dessa família só tenho boas recordações. Quando o Félix Mourinho treinava o Rio Ave subimos de divisão e chegamos à final da Taça. O José fazia parte do plantel mas sempre deu preferência aos estudos. Ele não levava o profissionalismo a cem por cento, como praticante. Treinava, mas não com aquele espírito de sacrifício, e, como era o filho do treinador, se jogasse havia críticas. Ele tinha 18, 19 anos e já aí não passava despercebido. Era chatinho nos treinos, queria sempre ganhar e achava-se dono da razão.

Manteve sempre contacto com eles?

De vez em quando encontrava o pai num restaurante em Vila do Conde. Uma vez tive um contacto quando o Mourinho já estava no FCP como adjunto, mas nunca mais soube nada.

E quando ele lhe ligou?

Nessa altura eu ajudava um amigo no São Pedro da Póvoa. Ele ligou-me e eu: "Mourinho?" Não reconhecia a voz nem me lembrava dele. Ele pediu autorização para indicar o meu nome em Leiria, eu disse que sim, claro.

Começou a era Mourinho no Leiria...

Sim, nessa altura o Leiria vinha de uma boa Liga. O treinador era o Manuel José. Deixou uma herança pesada para o Mourinho, a equipa estava em quinto ou sexto, mas com o trabalho do Mourinho saímos para o FCP deixando o Leiria em quarto. O Mourinho revolucionou o futebol português. Hoje os treinadores andam de sobretudo, golas levantadas, barba por fazer, com pranchetas em campo. Antigamente não havia nada disso. E também se nota diferença no vocabulário. Ninguém falava em transição ou segundas bolas até ao Mourinho.

De Leiria para o Porto...

O FCP era forte psicologicamente e inteligente tacticamente. Os jogadores assimilavam bem aquilo que o José queria. O José começou com uma equipa curta, bloco curto, pressão alta e pegou todo o pessoal do futebol desprevenido. Éramos sempre uma surpresa, em casa ou fora.

Quem eram as peças-chave?

O Deco era o cérebro no meio, na frente o Derlei, que é um campeão, e atrás, pelo estatuto e ambição, o Jorge Costa.

E no jogo com a Lazio,volta a sentar-se no banco, como treinador principal devido a expulsão de Mourinho...

Há treinadores que passam o jogo todo gritando e gesticulando e os jogadores ouvem pouco. Por isso o José fala tão pouco no jogo. Como ele é organizado, já tinha deixado tudo programado para eu fazer. Ocupação de espaços, movimentação no campo, tudo estava pré-estabelecido. Trabalhar com o José é difícil porque ele é exigente mas ao mesmo tempo é fácil porque ele deixa tudo organizado.

Foi o melhor momento no FCP?

Os momentos que não esquecerei foram em Paços depois de termos ganho ao Panathinaikos lá - nunca ninguém o havia feito - e nós ganhámos 2-1. E a final de Sevilha, com o Celtic, que foi o momento mais emotivo, muito mais do que a final da Champions. Acabámos de festejar o 1-0, levámos um empate; 2-1, levámos um empate. Fizemos o 3-2 e faltavam 5'. Foi dramático, estávamos doidos no banco.

No FCP com quem se dava melhor?

Com o Derlei, até porque passei férias com ele.

E o Baía?

Grande jogador, grande pessoa e muito querido. É um exemplo.

Menos para Scolari...

A situação dele na selecção é complicada. Eu penso que quando o Scolari foi para a selecção houve uma combinação com Gilberto Madaíl para o Baía não ser convocado.

Simpatiza com Pinto da Costa?

É o presidente ideal. Tinha sempre a discrição de abordar jogadores e treinador nos momentos certos. Confiava no treinador e deixava-lhe a responsabilidade.

Mas e a relação com Mourinho?

Ele não queria que o José saísse. Ele sabe reconhecer o trabalho do José e vice-versa.

E antes da final com o Mónaco em que se falava que Mourinho tinha recebido ameaças de morte?

Depois de todas as confusões, não poderia estar contente, não é hipócrita. Recebeu ameaças mas não sei como as coisas se passaram e chegou a altura em que achou que devia partir.

Depois Londres.

Inicialmente eu não estava muito motivado. Preferia ir para Espanha ou para Itália. Tinha estado duas vezes em Inglaterra e não gostei. Mas depois de morar lá, achei espectacular. Deliciei-me. Lá era só mais um no meio da multidão.

No Chelsea conseguiram ter uma equipa tão forte como no FCP?

No Chelsea não é fácil jogar bem e ganhar. É mais difícil do que no FCP porque sentíamos muita pressão. Quem joga com a obrigatoriedade de ganhar não joga tão bem. O FCP não tinha pressão de ganhar tudo e as coisas foram acontecendo. Na Champions conta muito se temos ou não lesionados. Nós saímos duas vezes nas meias-finais com o Liverpool. Há uma bola que não entra e o árbitro diz que entra. O Robben e o Duff estavam lesionados. Depois foi por penáltis.

Quantas horas trabalha ele por dia?

Ele só pensa em futebol. Não vou dizer 24 horas, mas 14 horas sim. Ele come futebol e é por isso que está onde está. E também porque é um predestinado. Ele não é uma pessoa comum e mais não digo. Ou se ama ou se odeia.

O Chelsea é um clube multicultural. Como era o ambiente?

Sim, mas na altura das refeições separavam-se todos. Havia a mesa dos ingleses, dos negros e dos estrangeiros. O Geremi, Gallas, Makelele, Drogba e os negros ingleses sentavam-se todos lá. Eu chamava a mesa do apartheid. Houve um dia em que o Lampard se sentou lá e eu perguntei: "Eles deram-te autorização para te sentares aí?". Perdeu-se tudo em gargalhadas. Havia respeito entre todos.

E fora os almoços?

Uma vez fomos jantar, entrámos e havia aparato no restaurante. Era a filha do Abramovich que fazia 15 anos. Eu olhei e disse para ele não se preocupar, porque se não tivesse dinheiro eu pagava. Ele é bem-disposto, tenho simpatia por ele porque apesar do poderio económico, é muito discreto e é muito gentil.

Só o Mourinho na selecção fazia esquecer Scolari?

O Scolari foi o melhor seleccionador de Portugal. Os números estão à vista. Fez um excelente trabalho e isso é indiscutível. Conseguiu unir um país onde, anteriormente, só existia selecção se tivesse muitos jogadores do Benfica, FCP ou Sporting, mas o Scolari conseguiu unir todos os clubismos pela selecção. Embora o José queira, acho que ele só regressa velhinho. A vida dele não passa por Portugal, o país é pequeno para ele.

Para Milão, o Brito já não foi.

Quando saímos do Chelsea, o Mourinho resolveu estudar propostas. Não tive lugar, mas continuamos amigos, como sempre fomos. Ele disse: se tiver espaço levo-te, se não tiver, não levo. Claro que gostaria de ter ido. Quem não gostava de estar no Inter e trabalhar com o Mourinho?

Mas continua a colaborar com ele?

Quando ele precisa de alguma coisa, ele dá as ordens e eu faço. Observar equipas, jogadores. Sou observador do Mourinho. Falamos de vez em quando, ele liga, fala comigo algumas coisas, mas pouco. Da vida dele e sobre o futuro não sei nada. O José é muito reservado.

E a próxima fase da Champions?

Segundo sei, o Mourinho não está a gostar muito de Itália: da imprensa e do futebol. Com o Barça será difícil, ele até pode não ganhar mas acho que com pragmatismo e inteligência vai passar.

E o Portugal-Brasil do Mundial?

Gosto muito de Portugal, mas o meu sangue é brasileiro. Nem queria que se encontrassem. Acho que vence o Brasil.


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