PRIMEIRO PLANO

Passos para um país ainda mais fracturado

por João Rodrigues, Publicado em 19 de Abril de 2010   
O liberalismo nacional está reduzido a uma ficção económica que esconde mal a verdadeira aposta no esvaziamento do sector público
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Diz-se por aí que o PSD tem um líder com um projecto "liberal" que não quer o Estado nos negócios. Na realidade, Passos Coelho é mais uma prova de que o liberalismo nacional está hoje reduzido a uma ficção económica que esconde mal a verdadeira aposta política no esvaziamento e enfraquecimento do sector público, transformando-o em campo para novos negócios.

Num contexto em que aumenta a pressão parasitária dos grupos económicos cada vez mais desesperados para que se opere uma transferência massiva de recursos públicos para mãos privadas, o PSD tenta ultrapassar o PS no desvelo com que serve a nossa lumpemburguesia.

O Serviço Nacional de Saúde ou a escola pública são demasiado apetitosos para serem geridos numa lógica de bem comum e de direitos sociais. A retórica da "liberdade de escolha" disfarça mal a aposta na construção de mercados, usando o financiamento público nestas áreas. O resultado é conhecido: maior desigualdade no acesso a estes bens, balcanização da sua provisão, corrosão da ética do serviço público e maiores custos de monitorização.

Ao mesmo tempo que se acaba de desestruturar a provisão pública universal, trata-se de reinventar um modelo de Estado que pune e disciplina os desempregados e os mais pobres, procurando alimentar os mais imorais sentimentos, já de si muito difundidos em sociedades desiguais. Passos Coelho não fala nas origens da actual crise económica, preferindo ver o aumento do desemprego e da pobreza, numa linha aliás cultivada por certos sectores governamentais, como o resultado de um súbito aumento de uma preguiça a disciplinar, e não como o produto de estruturas socioeconómicas liberais bem determinadas, que além disso estão por reformar.

O objectivo do "tributo solidário" desta novilíngua é claro e não passa por políticas de criação de emprego ou de combate às desigualdades. O economista Miguel Frasquilho, actual vice-presidente da bancada parlamentar do PSD, numa intervenção considerada inconveniente, fixou o objectivo final de todos os esfarelamentos dos direitos sociais: reduzir salários.

Os pronunciamentos ideológicos de Passos Coelho revelam um paradoxo com consequências políticas maiores: as medidas de austeridade assimétrica permanente inscritas no PEC e tributárias da actual configuração da UE e da globalização, nas quais PS e PSD no fundo convergirão, obrigam Passos Coelho a uma fuga discursiva para os braços da extrema-direita parlamentar, também ilustrada pela aposta na revisão constitucional. Perdendo as referências socialistas, o PS de Sócrates favorece estes passos para um país ainda mais fracturado.

Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas


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