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O surf toma nova direcção: directo ao céu

por Matt Higgins - The New York Times, Publicado em 17 de Abril de 2010   
Jovens surfistas trazem manobras espectaculares. Mas Kelly Slater acompanha a tendência. E ganha
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Na Primavera passada, montado numa onda verde em Mentawais, um grupo de ilhas ao largo da costa oeste da Indonésia, Jordy Smith executou o que foi talvez o mais sublime aéreo da história do surf, um back flip - rodar no ar - enquanto deu uma volta e meia. O vídeo deste flip, conhecido como Rodeo Clown, tornou-se um fenómeno quando foi postado no Yahoo.

Com truques adaptados de desportos radicais como o snowboard, BTT freestyle e, principalmente, skate, Smith, um sul-africano de 22 anos, tem estado na linha da frente dos jovens surfistas que entram num reino completamente diferente. Formando um grupo internacional na casa dos vinte e poucos anos, cresceram a ver filmes de free surf, modalidade em que os praticantes executam manobras radicais em locais seleccionados sem terem a pressão de pontuar. Começaram a transpor as barreiras entre o free surf e o surf de competição.

"É o futuro", afirma Kelly Slater, 38 anos e nove vezes campeão do mundo. "A modalidade levantou realmente voo. Os maiores tubos que existem já foram surfados. Provavelmente, o melhor carving - a manobra mais clássica - que irá alguma vez ser feito já o está a ser ou já aconteceu mesmo."

Durante a maior parte da sua história, o surf de competição premiava os atletas que ficavam mais tempo sobre as ondas. Chegar à areia após uma série de manobras proporcionava, frequentemente, as pontuações mais altas. E a manobra mais radical era o tubo, ou passar por trás da crista da onda e emergir antes que esta rebentasse. Perder o contacto com a onda gerava controvérsia, o que levou os organismos dirigentes do surf competitivo a suprimir os aerials.

"Por vezes, nem davam pontuação se alguém saltava da prancha ou algo do género", diz Smith, que na semana passada misturou aerials com outras manobras modernas, terminando no segundo lugar em Snapper Rocks, Austrália, na primeira etapa da temporada de Surf. Foi o melhor resultado que já obteve na carreira de três anos no Mundial.

ALTERAÇÕES As recentes alterações nos critérios competitivos da Associação passaram a premiar os novos truques, recompensando um grau mais alto de dificuldade em detrimento da regularidade e pontuando as duas melhores prestações, em vez de três ou mais, durante um heat de 30 minutos. Agora, um concorrente pode fazer uma ou duas pontuações com um surf mais seguro e partir depois para as manobras mais arriscadas.

Numa competição nas Maldivas em Junho passado, Patrick Gudauskas, 24 anos, recebeu a pontuação perfeita, 10, quando executou um rodeo clown num dos heats iniciais. Obteve outro durante a final e recebeu mais um 10. Em Agosto, Matt Meola, 20 anos, executou um rodeo numa prova independente no Maui e recebeu também um 10.

"Começam a aparecer surfistas a tentar manobras aéreas nos spots mais difíceis e isso é uma lufada de ar fresco", diz Slater. "Será, cada vez mais, a norma." Alguns dos surfistas de topo da actualidade foram desencorajados a executar aerials quando eram jovens. "Lembro-me dos meus pais aparecerem e dizerem-me: ' Não tentes fazer aerials. Faz três ou quatro turns e isso chega", recorda Smith.

HOSTILIDADE Dane Reynolds, 24 anos, de Ventura, Califórnia, cujas explosivas manobras aéreas fizeram do seu nome um sinónimo do novo estilo de surf, ouviu comentários semelhantes. "Havia outros tipos que me diziam o que é que eu não devia fazer", conta. Mas era aquilo que eu queria e que era mais fácil para mim. O surf tradicional foi sempre uma luta". As primeiras gerações enfrentaram hostilidade. "Penso nos anos 80 e 90, quando muitas pessoas pensavam que lá por se poderem fazer aerials não quer dizer que se devam fazer", responde Pritamo Ahrendt, juiz que dá pontuações em provas do circuito há 11 anos. "Não encaixava na tradição do que era o surf".

As origens dos aerials não estão bem documentadas. Kevin Reed, de Santa Cruz, Califórnia, foi o primeiro a executar a manobra na capa da Surfing Magazine em 1975. Matt Kechele, que mais tarde foi o mentor do jovem Slater, imitou os skaters durante o final dos anos 1970 na costa da Florida. Os detractores menosprezaram a abordagem de Kechele em graffitis perto da praia.

LANÇAMENTO Uma década mais tarde, com o novo design das pranchas a facilitar os aerials, San Clemente apareceu como a rampa de lançamento. Em particular as ondas consistentes e de alto desempenho de Lower Trestles, na San Onofre State Beach, e de T-Street, perto de Trafalgar Lane, onde o voador campeão mundial de 1989, Martin Potter, inspirou jovens locais, incluindo Christian Fletcher. Surfista de terceira geração, Fletcher ajudou a espalhar o moderno aerial mais do que qualquer outro surfista. "Eu fazia isto numa prancha de skate", diz Fletcher, hoje com 39 anos. "A manobra é a mesma. Porque não fazê-la também numa prancha de surf?"

Outros surfistas não concordaram. "Um dos juízes disse-me que eu precisava de ir com mais calma porque eles não sabiam como pontuar aquilo", recorda Fletcher em relação às suas manobras. Os surfistas do circuito mundial fizeram circular uma petição entre os profissionais que pedia aos media que se focassem menos em Fletcher, que cultivava uma atitude anti-social e anti-establishment.

IMITAÇÃO Colocado na lista negra pelas revistas de surf, Fletcher popularizou os aerials através de vídeos produzidos pelo pai, a lenda do surf Herbie Fletcher, em que aparecia a voar sobre as ondas, com uma banda sonora pesada a acompanhar.

Bruce Irons, de 30 anos, ofereceu uma sensibilidade de free surf ao circuito mundial entre 2004 e 2008. Recorda-se de ter estudado os vídeos de Fletcher enquanto crescia no Hawai. "Para mim, Christian Fletcher foi um pioneiro", afirma Irons. "Quando era miúdo, eu pensava: 'Uau, isto é demais. Quero ser como este tipo".

Slater começou a dominar o surf competitivo conquistando cinco títulos mundiais consecutivos entre 1994 e 1998. No prestigiado Pipeline Masters, na costa norte de Ohau, Slater tentou, em 1998, um rodeo flip. Embora tivesse caído, a manobra marcou um novo caminho para o surf competitivo. "O surf convencional é bom, mas o que as pessoas querem ver é quando te lanças pelo ar e começas a misturar tudo", afirma Irons. "O futuro está nas manobras aéreas. Se te lanças no ar e misturas com curvas suaves, isso é surf."

FRESCURA Julian Wilson, 21 anos, executou a manobra que tem a sua assinatura, o sushi roll - um back flip de 180 graus em que estende o corpo da prancha como o Super-Homem - enquanto filmava uma sessão de surf no Japão em 2007, subindo a fasquia no que diz respeito a aerials. E o filme "Modern Collective", estreado em Novembro nos Estados Unidos, apresenta surfistas de competição de topo como Smith, Reynolds e Dusty Payne, do Hawai, a executarem impressionantes manobras aéreas. "Eles são os líderes", diz Kelly Slater sobre a nova geração. "Ainda estão a aprender. A sua abordagem é fresca e diferente. O surf terá de acompanhá-los."

No filme, Smith executa um aerial backside ao estilo do Super-Homem, separando-se da prancha e lançando a perna para a frente enquanto voa por cima da onda. E diz que mal pode esperar para apresentar a manobra, ainda sem nome, a competição esta temporada "e ver como é que eles a pontuam."

Entretanto, na segunda etapa da temporada, os miúdos irreverentes tiveram de reverenciar o veterano Kelly Slater - foi ele quem ganhou, voando sim, mas com os pés assentes na terra.

Veja o vídeo do Rodeo Clown de Jordy Smith aqui:


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