Facto: a população portuguesa está a envelhecer ao ritmo mais acelerado da União Europeia. Dentro de 50 anos, com portugueses com mais rugas e cabelos brancos, os hábitos de consumo vão ser diferentes. De que forma? A procura de equipamento médico, por exemplo, vai ter uma curva ascendente. E a procura de serviços de educação descerá. Não se trata de meros ajustes. Se for contabilizado apenas o efeito do envelhecimento, prevê-se um crescimento de mais de 30% em alguns sectores e quedas superiores a 10% em outros.
As conclusões são de Paula Albuquerque e João Lopes, ambos professores do ISEG, num estudo que será publicado no "International Journal of Social Economics". O objectivo é traçar um retrato do impacto económico que o envelhecimento populacional terá na sociedade portuguesa em 2060, identificando os sectores em que as alterações demográficas poderão ter um impacto positivo e aqueles em que terão o efeito contrário.
Efeitos positivos e negativos
"O envelhecimento tem imensos efeitos. Nós quisemos estudar o impacto que terá na economia", explica ao i Paula de Albuquerque. "Os efeitos que registámos não foram muito positivos para a economia. Em geral, a produção deverá aumentar, mas o valor acrescentado deve descer. O efeito no emprego também é negativo: os sectores mais beneficiados com o envelhecimento são os que empregam menos gente e os menos beneficiados empregam mais gente."
Em 28 anos, o peso dos idosos na população portuguesa subiu de 11,2% para 17,4%, um aumento que não se estima que seja travado nos próximos anos. A dificuldade em inverter esta tendência é precisamente a razão pela qual é útil identificar as indústrias com maior potencial de crescimento ou de declínio no futuro. Saber em que cavalo apostar é uma vantagem no planeamento a longo prazo. "Identificar as indústrias em crescimento ou em declínio devido ao envelhecimento é importante para ajudar a desenhar as políticas ecológicas, sociais e de emprego", pode ler-se no estudo que tenta antecipar as alterações estruturais provocadas por um fenómeno comum nas economias desenvolvidas.
Alimentos, bebidas e saúde
Segundo o estudo dos dois professores do ISEG, o sector que inclui equipamento médico e instrumentos ópticos é o que mais vai crescer (31,1%) nos próximos 50 anos, seguido pelo sector dos químicos (24,3%), em que estão incluídos os produtos farmacêuticos. O aumento da procura de serviços, equipamento e produtos de saúde é previsível numa sociedade com mais cidadãos seniores, que necessitam de mais assistência e têm mais problemas de saúde.
Jorge Simões, professor da Universidade de Aveiro, identifica no envelhecimento da população portuguesa não apenas dificuldades, mas também oportunidades. "O envelhecimento tem duas faces: uma penosa, pelo ónus que tem na despesa pública, e outra mais positiva pelas oportunidades que se nos apresentam", explica o antigo consultor para a Saúde do antigo Presidente Jorge Sampaio. "O sector da saúde será cada mais relevante na economia. Sem dúvida que se prevê uma expansão. Há cada vez mais fármacos relacionados com o envelhecimento e vão nascendo oportunidades no sector privado. Apesar de Portugal estar no caminho de se tornar um dos países mais envelhecidos da Europa, os impactos do envelhecimento não têm sido tão drásticos como se pensava."
A conclusão de que o consumo de produtos e serviços relacionados com a saúde irá acompanhar o envelhecimento da população não é propriamente difícil de prever. Mas nem todas as alterações são tão óbvias. "Talvez a conclusão que nos tenha surpreendido mais foi o aumento do consumo de produtos alimentares e bebidas", afirma Paula de Albuquerque sobre um dos sectores em que a variação de volume é mais drástica, com um aumento de 642 milhões de euros.
Defesa e função pública
Do lado dos sectores que são prejudicados pelo envelhecimento, surge à cabeça a administração pública, defesa e serviços de segurança social obrigatórios (-13,9%). A razão por trás desta alteração pode estar relacionada com o facto de, dentro de meio século, haver muito menos gente a contribuir para a segurança social. Logo a seguir aparecem os serviços de educação (11,6%), explicável pelo menor número de crianças, e o consumo de maquinaria de escritório e computadores (7,7%).
A intenção deste estudo não é, porém, fazer previsões para o futuro: além do envelhecimento, existem outras variáveis em acção nas alterações ao consumo que não são abordadas. "Para isolarmos o efeito que o envelhecimento vai ter, partimos do princípio que os idosos vão ter os mesmos gostos e preferências, bem como a mesma média de rendimentos", explicam os autores Paula de Albuquerque e João Lopes.




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