Visto de fora
Falências bancárias
por Paul Krugman, Publicado em 16 de Abril de 2010
Para evitar futuras crises financeiras, devemos fazer muitas perguntas. Eis uma que talvez ainda não tenha ouvido: que se passa com o estado da Geórgia?
Não sei quantas pessoas sabem que a Geórgia é o estado da União com mais falências bancárias; desde o princípio de 2008, a Federal Deposit Insurance Corp. tomou posse de 37 dos seus 206 bancos. E essas falências são um sintoma de problemas mais profundos. Pode argumentar-se que nos Estados Unidos nenhum outro estado sofreu tanto com o descalabro dos bancos.
Para se ter uma ideia da especificidade da Geórgia, há que ter presente que a bolha imobiliária foi desigualmente repartida do ponto de vista geográfico. Na generalidade, os preços só subiram de forma acentuada nos locais onde as restrições urbanísticas e outros factores limitaram a construção de novas casas. No resto do país - zonas a que em tempos chamei o Interior -, os regulamentos urbanísticos permissivos e a grande abundância de terrenos facilitaram o aumento da oferta de casas, situação que evitou grandes aumentos de preços e, consequentemente, uma bolha de grandes dimensões.
Em grande parte a ressaca pós-bolha está concentrada nos estados onde o preço das casas teve um grande aumento e depois caiu a pique, deixando muitos proprietários com liquidez negativa porque as suas casas valiam menos que as respectivas hipotecas. Não é por acaso que a Florida, o Nevada e o Arizona estão à frente nos EUA tanto em liquidez negativa como em incumprimentos hipotecários; os preços mais que duplicaram em Miami, Las Vegas e Phoenix, tendo sofrido subsequentemente as maiores descidas.
Mas nem tudo no Interior se resolveu sem dramas. Há em particular um contraste muito acentuado entre os dois maiores estados que podemos considerar do Interior, o Texas, onde o pior foi evitado, e a Geórgia, que não conseguiu evitá-lo.
Este contraste pode explicar--se pela geografia das duas maiores cidades desses estados. À semelhança de Dallas ou de Houston, Atlanta é uma metrópole que se espraia, com poucos limites à sua expansão. E, como outras cidades do Interior, Atlanta nunca teve um aumento grande e repentino do preço das casas.
Todavia, enquanto o Texas conseguiu evitar complicações de maior no mercado imobiliário e no sistema bancário, a Geórgia está a atravessar uma fase de grave trauma pós-bolha. A percentagem de hipotecas com pagamentos em atraso é maior na Geórgia que na Califórnia; a percentagem de proprietários de casas com liquidez negativa na Geórgia é o dobro da média nacional. E a Geórgia vai à frente nos EUA em falências bancárias.
Então que se passa com o estado da Geórgia? Como disse, os bancos ensandeceram, num contexto que recorda muito os excessos que levaram à crise savings and loans da década de 80. Alguns executivos bancários expandiram desmedidamente o crédito - e atribuíram a si próprios salários principescos -, apoiando-se em larga medida no dinheiro de investidores externos em vez de no dos seus depositantes.
Foi divertido enquanto durou. A dado momento, a música parou...
Porque não se passou o mesmo no Texas? Surpreendentemente, a resposta mais correcta é que o Texas tinha uma forte regulamentação de protecção do consumidor. Muito particularmente, a legislação texana tornava muito difícil os proprietários de casas tratarem-nas como mealheiros a que podiam ir buscar dinheiro aumentando a dimensão das hipotecas. A Geórgia não tinha protecções desse tipo (e a administração Bush bloqueou os esforços desse estado para restringir directamente os empréstimos subprime). O resultado foi que a Geórgia sofreu por causa dessa diferença.
O que é notável no contraste entre a história do Texas e o desmoronamento da Geórgia é o facto de parecer não ter nada que ver com as questões que têm dominado os debates acerca da reforma bancária. Por exemplo, muitos observadores têm atribuído as culpas da crise a derivados financeiros complexos. Porém, os bancos da Geórgia acenderam o seu próprio rastilho com empréstimos à antiga, que deram para o torto.
Apesar da grande preocupação actual com os bancos demasiado grandes para falirem, a Geórgia sofreu por causa da proliferação de bancos pequenos. De facto, quem pior se comportou durante o surto de concessão de empréstimos foram, na generalidade, as pequenas instituições em fase de arranque que atraíram clientes dirigindo a atenção a grupos específicos. Assim, o Georgian Bank, fundado em 2001, procurava atrair a elite do estado; alguns membros mais preeminentes eram presença regular a bordo do iate e do jacto privado do presidente--executivo do banco. Entretanto, o Integrity Bank, fundado em 2000, jogava a cartada de um negócio "assente na fé"; foi referido num artigo de uma edição da revista de 2005 cujo título era "Rezar por lucros". Ambos os bancos faliram.
Então onde está a moral desta história? No meu entender, é um alerta contra as visões reformistas mais ao estilo bala de prata: a ideia de que atacar uma só coisa grande - neste caso, desmantelar os bancos grandes - vai resolver-nos os problemas. O caso da Geórgia mostra que a má actuação de muitos pequenos bancos pode ser tão nociva como a de alguns gigantes financeiros.
Além disso, o contraste entre o Texas e a Geórgia parece indicar que a protecção do consumidor é um elemento essencial de qualquer reforma. Limitemos, com certeza, o poder dos grandes bancos. No entanto, se não se protegerem os consumidores de empréstimos predatórios, haverá centenas de pequenos agentes - tanto bancos pequenos como "fontes de hipoteca" não bancárias, responsáveis por muitos dos piores abusos no âmbito do subprime - que irão avançar para preencher o lugar deixado vago.
Economista Nobel 2008
Exclusivo i/The New York Times
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