Música
Mão Morta. 25 anos depois, ainda entre peluches e pesadelos - vídeo
Publicado em 15 de Abril de 2010
A celebrar um aniversário redondo, a banda recebeu o i em Braga, na casa onde se escutaram os seus primeiros acordes
As paredes de granito ganharam novas cores: hoje estão vestidas por centenas de livros. Estamos num palacete do centro de Braga, terra dita conservadora, ainda hoje conhecida como "cidade dos três P: padres, putas e paneleiros". A expressão popular até podia resumir os contrastes deste lugar, onde a cada esquina surge uma nova igreja. Local improvável, este: uma mulher apressa-se para a missa das cinco. E Adolfo Luxúria Canibal, qual profano entre a santidade, corre para uma entrevista num edifício que lhe é familiar. A Casa do Rolão transformou-se numa livraria. Mas as paredes, hoje cobertas de livros, escondem mais histórias do que as páginas presas às lombadas. Foi por aqui que passou a movida bracarense dos anos 80. O seu melhor representante? Os Mão Morta, claro. A banda que celebra agora 25 anos de vida.
Não será graças a Deus que um projecto com estas características cumpre um quarto de século. Embora os seus membros sejam militantes irredutíveis do rock'n'roll, nenhum deles depende da música para sobreviver. Talvez esteja aí o segredo: Adolfo é um advogado empenhado na causa ambiental, Miguel Pedro um director da autarquia fanático pelo Sporting de Braga e António Rafael um simpático consultor.
"Sempre gostei muito do rock'n'roll para fazer dele a minha profissão. Nunca deixámos de ser assalariados do capitalismo para sermos palhaços", assegura ALC. Os restantes elementos - a baixista Joana Longobardi, e os guitarristas Sapo e Vasco - vivem noutras cidades. Se a nossa vontade fosse justificar o injustificável, provavelmente teríamos encontrado uma segunda razão: a dispersão geográfica. "Estamos entre Braga, Coimbra e Almada. Quando o Adolfo estava em Paris conseguimos compor dois discos. O avanço tecnológico facilita-nos muito a vida", conta o teclista, Rafael.
Mas que razões seria preciso evocar além de 14 discos de originais e uma carreira sem ceder um milímetro? Luxúria insiste na vida independente dos elementos dos Mão Morta: "Não temos de nos aturar todos os dias, não partilhamos as chatices do nosso quotidiano e juntamo-nos para fazer uma coisa de que gostamos. É puro gozo."
Salas destruídas
A conversa corre solta, longe das ideias feitas à volta do grupo. No entanto, apesar do estatuto de banda de culto, os Mão Morta parecem carregar ainda hoje um apelido nefasto. Não para quem os conhece, menos ainda para os fãs. Mas não é por acaso que, ao longo da sua existência, o grupo viu recusadas várias propostas de concertos. Não muito longe deste palacete barroco que serviu para os primeiros ensaios - e de onde emergiram vários projectos artísticos - existe numa sala que ajuda a perceber a ideia de violência associada à banda. Ou, pelo menos, a forma como foram olhados durante anos. Talvez até aos dias de hoje.
Em 1993, o Theatro Circo, ex libris da cidade, preparava com pompa e circunstância uma reinauguração. Óptimo pretexto para um concerto gratuito da banda local que mais fronteiras galgou. A afluência foi tal que a sala acabou por suportar o dobro da sua capacidade. Resultado: duas horas depois, voltou a fechar para restauro. As cadeiras foram arrancadas, os candelabros partidos e cortinas de veludo sofreram danos irreparáveis. "Com tanta gente, acho que até um rancho folclórico fazia estragos", justifica o teclista António Rafael.
As memórias desses tempos são poucas. Apenas fotográficas: Adolfo recorda a imagem de uma fã, sem roupa da cintura para cima, a tentar despi-lo em palco. E a forma como mergulhou várias vezes de nariz no público, causando talvez o único ferido da noite. "Foi o tipo que levou contigo em cima", atalha o baterista Miguel Pedro. O concerto acabou com Luxúria aos berros a gritar até à exaustão "Casal Ventoso Sff". Um clássico.
Os Mão Morta destes dias já carregavam uma identidade muito própria. Para trás, tinham ficado dois concertos históricos no Rock Rendez-Vous: numa primeira actuação, a banda vence o prémio de originalidade; na segunda, já como cabeças de cartaz, dá--se o episódio mais marcante da longa lista de espectáculos ao vivo. Provocador e inebriante, Adolfo Luxúria Canibal decide espetar várias facadas numa perna a meio do concerto. Para "anestesiar o ambiente", justificou então. Hoje, mais sereno - "já não tenho 20 anos" - recorre a passes de mágica. "Quando dominávamos mal os instrumentos tínhamos tendência a compensar com outro tipo de coisas. Um ilusionista não tira coelhos da cartola, já lá estão, consegue é desviar-nos do essencial", diz.
25 anos de carreira
Mais do que ideias feitas ou a imagem de um negrume diabólico, os Mão Morta revelaram desde cedo o desejo de construir uma carreira longe dos circuitos mais comerciais ? só a partir do single "Budapeste" começaram a ter airplay. E uma veia experimental quase militante, fosse nos primeiros ensaios em que gravavam batidas nos sofás e mesas, ou na concepção de espectáculos como "Müller no Hotel Heissischer Hof" ou o recente "Maldoror", que parte dos escritos do Conde de Lautréamont, pseudónimo de Isidore Ducasse.
Mas os 25 anos não servem apenas para celebrar o passado ou uma carreira invulgar na música portuguesa. A banda vai editar um novo registo de originais, "Pesadelo em Peluche", e um DVD com sua a história, no fim do ano. No dia 29 é tempo de descer à capital para apresentar o novo disco, no Coliseu dos Recreios. "Novelos de Paixão", o primeiro single, até pode soar a um regresso a "Budapeste": sempre sem ceder, "sempre a rock and rolar".
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Mão Morta. 25 anos depois, ainda entre peluches e pesadelos - vídeo
Actividade em ionline