PRIMEIRO PLANO
Elogio da Casa da Música
por Paulo Tunhas, Publicado em 14 de Abril de 2010
A Casa da Música criou hábitos antes pouco existentes e critérios novos para a experiência da música. Melhorou vidas. Muito bem
Lê-se na entrada "Música" do "Dicionário das Ideias Feitas" que acompanha o Bouvard et Pécuchet de Flaubert: "Música. Faz pensar numa data de coisas. Adoça os costumes. Exemplo: A Marselhesa". A ideia de que a função da música consiste em influir nas emoções é um dos tópicos mais controvertidos da filosofia da música, e o exemplo de Flaubert sublinha, pela irrisão, o seu estatuto de lugar comum. Resta que, deixando a questão dos sentimentos de lado, há algo que é indubitável: mais do que qualquer outra arte, a música educa. Educa em sentidos múltiplos. Desenvolve, por exemplo, a atenção.
Isto não vale, provavelmente, para aquilo que se pode chamar "música aderente", a música que, como o grosso da música pop, retira o seu valor da aderência a um tempo, a um lugar ou a uma pessoa, e de que nos recordamos exactamente por isso mesmo. Mas vale certamente para a grande música, aquela que, mesmo conhecendo-a bem, ouvimos sempre como se fosse a primeira vez. Se tivermos atenção. Pessoas diversas, por razões diversas, têm diferentes capacidades de atenção musical. Mas mesmo cada um de nós varia, consoante as circunstâncias, no exercício dessa disponibilidade. Uma coisa, no entanto, é certa. O exercício repetido estimula a faculdade de atenção e aumenta o prazer tido na música.
A Casa da Música, no Porto, faz cinco anos. Custa-me um bocado dizê-lo, porque tenho amigos que trabalham, ou trabalharam, lá, e não convém certamente abusar da gratidão, mas foi, em coisas de artes, o melhor que aconteceu ao Porto desde há muito tempo. A música ouvida num concerto não é a música ouvida em casa: é, se o concerto for bom, maior. E a exercitada atenção do ouvido desdobra-se numa atenção do olhar. Para bem se perceber a música é preciso vê-la a ser feita. É mesmo preciso vê-la para a ouvir bem.
A literatura é sem dúvida o mais importante de tudo, porque sem a educação que ela dá não podemos nunca verdadeiramente imaginar o que é ser diferente de nós mesmos, quer dizer, percebemos com muita dificuldade o que é pensar de outra maneira. A pintura pode dar a mais perfeita ideia da beleza, ou, diferentemente, da estranha concretude das coisas - no limite, da existência. Mas a música, como vária filosofia não cessou, com razão, de insistir desde o século XIX, oferece-nos algo de diverso: uma passagem para o extra-mundano que, em certos casos, guarda intacta a suspeita das mais fortes asperezas mundanas. A Casa da Música criou hábitos e possibilidades, antes pouco existentes, e critérios novos e exigentes, para esta experiência. Melhorou muitas vidas. Aumentou, nestes tristes tempos, a atenção educada. Muito bem.
Professor do Departamento de Filosofia da Universidade do Porto
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Artigo: Elogio da Casa da Música
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