António Dias tem 46 cubos mágicos em casa e consegue resolvê-los em menos de um minuto, usando apenas uma mão. Mas o mais surpreendente é que António não nasceu nos anos 70, nem foi um jovem viciado no Rubik nos anos 80. Um dos portugueses mais rápidos na arte de descodificar o quebra-cabeças tem 16 anos e encontrou o cubo entre a tralha do pai. "Trouxe-o para casa da minha avó e tentei resolvê-lo. Fui à internet e encontrei um vídeo tutorial no YouTube. A partir daí foi uma questão de treino. Passo horas com o cubo enquanto estou ao computador. O meu melhor tempo são 16,19 segundos. Não é um bicho-de-sete-cabeças", explica ao i.
Erño Rubik não deve concordar com António. O arquitecto húngaro que inventou o brinquedo mais popular dos anos 80 demorou um mês a resolvê-lo e diz que hoje em dia é muito mais fácil. "Actualmente basta procurar ajuda na internet. Eu não tinha ninguém", explicou à "Time".
Tudo começou como um dilema pedagógico de geometria. Graças à - chamemos-lhe assim - dificuldade de aprendizagem dos alunos da Academia de Artes e Trabalhos Manuais Aplicados em perceber a geometria tridimensional, Rubik decidiu pegar nos exemplos do livro e dar-lhes vida. O professor criou então um mecanismo cilíndrico dentro de um cubo, que permitia a manipulação das 54 faces. Construiu-o em madeira e pintou-o para ser mais fácil explicar o movimento. Estávamos em 1974 e o cubo teve tanto sucesso que depressa se transformou num brinquedo. Em 1975, Erño patenteou o quebra-cabeças na Hungria, mas se não fosse a empresa norte-americana Ideal Toy Company a exportá-lo, provavelmente hoje não o conheceríamos.
Em 1980 começou a década dos chumaços, dos sintetizadores, da laca no cabelo e, claro, do cubo de Rubik. Aliás, a data que se celebra oficialmente não é a da criação e sim a da comercialização. No site oficial anuncia-se que em 2010 se assinalam os 30 anos do cubo de que se venderam qualquer coisa como 350 milhões de exemplares. Provavelmente à custa de alguns ataques de fúria e frustração que o faziam voar janela fora.
Da paragem de autocarro à praia
Pedro Penim, de 34 anos, não chegou a tanto, mas esteve perto. Inventou esquemas menos drásticos. Descolar cuidadosamente o autocolante de cada quadradinho e juntar as cores era uma ideia genial para um miúdo de 7 anos. Mas quando a pôs em prática percebeu que não seria assim tão fácil. "Quando és criança achas que consegues enganar o mundo, mas via-se claramente que o cubo tinha sido manipulado", recorda ao i o actor. Outra forma era desmontar o cubo e voltar a montá-lo segundo as cores. Também não tinha sucesso, confessa.
Pedro Penim cresceu numa época em que existia uma equação simples: és criança e não tens dificuldades motoras, tens de ter um cubo mágico. Era tão simples quanto isso. Nem era preciso ser um ás a descodificar o quebra-cabeças. Durante dois anos houve cubos por todo o lado. Pedro chegou a levá-los para a praia, mas não se lembra de alguma vez ter conseguido resolvê-lo. "Consegui deixar um lado da mesma cor, mas nunca o acabei." Já Hugo Fernandes perdeu a conta das vezes que terminou o cubo. "Umas centenas", garante.
O empresário de 37 anos foi um adolescente viciado em Rubik durante dois anos. O suficiente para ultrapassar o pai nesta matéria e desenvolver técnicas especiais. "Era muito complicado, mas depois de se apanhar o truque era mais fácil. Fazia sempre uma cruz de cores nas faces opostas. O Rubik era um desafio que prendia; chegava a ficar um dia inteiro a tentar." Não era o único. Hugo recorda que havia cubos em todo o lado, nas escolas e principalmente nas paragens de autocarro. Os rubikaólicos sofriam até de dores de pulso e braços. Hugo Fernandes não era excepção. "Era parecido com uma tendinite, mas não doía tanto", recorda o empresário.
Competição
Quem se lembra de ver Júlio Isidro a promover concursos de cubo mágico na RTP, num domingo à tarde, pode pensar que isso faz parte do passado. Está enganado. Ainda existem competições de Rubik. Em Portugal já se realizaram dois Opens e para Julho está agendado outro. "Queremos fomentar a prática do cubo de Rubik, dá-lo a conhecer aos mais novos, que não viveram a loucura dos anos 80", diz Paulo Branco, da Goliath Games Iberia, empresa que organiza os campeonatos e é a representante oficial do cubo em Portugal.
Em 2008 tiveram 40 inscritos e no ano passado os competidores aumentaram para 60, portugueses e espanhóis. António Dias nunca falta. Ocupa o segundo lugar no campeonato nacional e diz que o jogo não tem nada de antiquado. Para os que desistiram da empreitada de o solucionar, o recordista nacional de 16 anos dá-lhes umas dicas. "Começo por fazer uma cruz em cada face do cubo. Depois de resolver uma das faces, faço a segunda linha do outro lado. Não uso vaselina, mas às vezes ponho um spray de silicone para evitar o atrito e ser mais rápido", conta-nos por telefone o adolescente.
O quase profissional, que nas férias da Páscoa descurou os treinos, diz que só fica com dores nos pulsos quando joga com uma mão. "Só faço duas ou três vezes seguidas, depois tenho de parar." António Dias garante que há cada vez mais interessados da sua idade. "Toda a gente fica com curiosidade e pega no cubo." Será que ainda tinha coragem de tentar mais uma vez?
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