Accionistas e gestores de topo aliaram-se para extrair dividendos à custa do esforço da esmagadora maioria dos trabalhadores
Imoral. Obsceno. Chocante. É preciso chegar ao extremo do
presidente da EDP, que ganha num mês o que um trabalhador aufere, em média, ao longo de 25 anos, para que o consenso do empresarialmente correcto dê alguns sinais de enfraquecimento num dos países mais desiguais da Europa. Nas últimas duas décadas consolidou-se uma
cultura pública que ignorou os
custos sociais das desigualdades económicas: da ausência de mobilidade social aos níveis persistentes de pobreza, passando pela desmotivação no trabalho, pela erosão da confiança e acabando na arrogância do dinheiro concentrado, que se transmuta com tanta facilidade em poder político e em corrupção.
Infelizmente, a hegemonia do empresarialmente correcto não se dissolve num dia e a indignação moral, o "estupor público", para usar a apta expressão da socialista Ana Gomes, não se transforma automaticamente em reformas igualitárias. Sócrates, um representante do bloco central, já se sabe, incensa os ricos e os seus elogios a Mexia, que justamente indignaram Ana Gomes, são talvez a expressão da crença bizarra de que os níveis de remuneração reflectem o mérito e não o poder.
Enquanto isso, demasiados críticos continuam presos à ideia de que as remunerações elevadas dos gestores só são uma questão política quando se trata de empresas públicas ou participadas pelo Estado.
Na realidade, a questão de quem se apropria do quê e porquê em toda a economia - envolva directamente o Estado ou não - é demasiado importante para ser deixada, por exemplo, à sorte da aliança que se formou entre accionistas e gestores de topo para extrair bónus e dividendos à custa do esforço da esmagadora maioria dos trabalhadores, reduzidos a um mero custo a economizar.
Isto tem-se traduzido, à escala europeia, numa quebra dos rendimentos do trabalho a favor dos rendimentos do capital, num aumento das desigualdades salariais, numa quebra do investimento criador de capacidade produtiva adicional e de emprego. Os crescentes lucros têm sido precisamente apropriados, sob a forma de dividendos, pelos impacientes accionistas.
Este regime gerador de crises só pode ser superado com mudanças corajosas das regras que enquadram as actividades dessa criação da lei a que chamamos empresa e os poderes dos diferentes actores que nela coexistem. Neste contexto, é mais do que justificado taxar punitivamente os prémios e outros benefícios que os gestores de topo das empresas capturam. Adicionalmente, é preciso instituir mecanismos que permitam que os trabalhadores tenham uma participação activa na gestão das empresas, incluindo na definição das remunerações dos seus diferentes intervenientes. É claro que, enquanto a liberdade sem freios dos capitais continuar em vigor, estas reformas necessárias continuarão a ser politicamente difíceis.
Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
Actividade em ionline