"Quem for nomeado pelo Estado tem de passar pelo crivo da idoneidade"

Publicado em 10 de Abril de 2010   
Pedro Passos Coelho avançou na unidade do partido e propôs regras para acabar com "o clima de suspeição" em que vive o país
Opções
a- / a+
Unidade, unidade, unidade. E da "genuína", para que não restem dúvidas. O PSD reuniu-se ontem à noite em Carcavelos para o arranque do XXXIII congresso social-democrata. Foi um momento de aclamação ao líder, Pedro Passos Coelho, o centro das atenções das largas centenas de delegados e observadores que se distribuíam nas mensagens de confiança e de união, nas curtas conversas com os jornalistas. Antes de ouvirem o novo presidente deixar duas garantias: a de que não tem "pressa de chegar ao governo", apesar de estar a preparar-se para "oferecer uma alternativa ao país".

Passos Coelho chegou ao pavilhão de Carcavelos às 19h34 e cumpriu com precisão suíça a prova olímpica dos "200 metros de cortejo". Falou por breves instantes à vintena de jornalistas que o assaltou à saída do carro, distribuiu cumprimentos pelos militantes que o aguardavam, trocou palavras de circunstância com algumas das figuras do partido. Os que estiveram consigo na campanha e os que estão agora com ele após a campanha. Doze minutos depois estava sentado na primeira fila do congresso, para ouvir os discursos inaugurais de Rui Machete, António Capucho e Carlos Carreiras. Às 20h01, cumprindo religiosamente o fuso horário dos telejornais, subia ao palco para o momento mais aguardado: a primeira declaração aos militantes, num congresso, como presidente do PSD.

A mensagem inicial foi clara: "A união e a coesão dão muito trabalho", têm de ser "regadas todos os dias" e não são apenas "uma fachada para mostrar ao país". Uma teoria acompanhada pela prática: louvou Paulo Rangel, saudou Aguiar-Branco, recordou Castanheira Barros. A todos os candidatos derrotados nas directas agradeceu o empenho "genuíno" na demonstração de disponibilidade para "o caminho que hoje o partido percorre". "É a primeira vez, em muitos anos, que quem disputa eleições apresenta depois listas conjuntas", sublinhou, dando azo à primeira grande ovação da noite. Com um sublinhado dirigido a Ferreira Leite, uma das grandes ausentes do dia. "O partido é hoje diferente do que era há um ano", apontou. Não foi preciso dizer o resto: pela memória de todos passou a sua exclusão das listas do PSD nas legislativas de Setembro.

Legislativas essas que, diz Passos Coelho, permitiram a eleição de um "governo sem capacidade reformista". Mas o novo presidente do PSD garante que não quer "ganhar as próximas eleições apenas porque o PS falhou". Mais: a nova direcção social-democrata assegura que não tem "pressa de chegar ao poder" e garante que não tem "vontade de criar crises políticas artificiais" para alimentar essa ambição. A estratégia passará, isso sim, por "oferecer uma alternativa ao país", colocando "o desenvolvimento de Portugal em primeiro lugar". E o argumentário do combate político foi de imediato exposto. "Vamos explicar aos portugueses que há uma alternativa à morte lenta do país. Explicar que quem não faz batota e se esforça com o seu trabalho, não pode chegar ao fim do mês e ver que são os que fazem batota que são recompensados", disse. Sócrates nunca foi mencionado, mas os militantes perceberam. E aplaudiram.

Sem referir calendários para a caminhada rumo ao poder, Passos Coelho acabou por deixar subentendido o timing das eleições presidenciais, em Janeiro de 2011, como um barómetro para avaliar o estado da arte política do país. "Nas presidenciais teremos a primeira prova eleitoral do novo ciclo", apontou. Uma referência que o levou também a assumir novamente Cavaco Silva como "o candidato natural do partido" e a remeter para Belém quaisquer movimentações nessa matéria. Em jeito de desafio. "Aguardamos a decisão do actual Presidente da República. Nunca confundiremos a presidência da República com o governo do país e nada faremos nesse sentido", explicou.

Para o fim ficou a mensagem mais pessoal do novo líder. Primeiro para dentro: "Sou hoje um homem feliz porque tive um mandato de confiança muito alargado". Depois para fora: "Sei que o partido vai ter um voto de confiança muito alargado. E tenho também felicidade por poder ajudar os outros a viver melhor". Se o índice de aplausos foi morno durante a meia hora de discurso, o final foi mais motivador: a felicidade desceu do palco, invadiu a sala e todos aplaudiram de pé. "Os trabalhos recomeçam às 22h00", anunciou-se depois. Era o momento de ir jantar. Com um sorriso nos lábios, todos rumaram ao exterior do edifício. Com um certo cheiro a pré-época futebolística e a inevitável crença que a acompanha: "Este ano é que é".


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close