Obituário

João Bénard da Costa, sozinho diante das estrelas

por Pedro Lomba, Publicado em 22 de Maio de 2009   
"Estou sozinho diante das estrelas", escreveu Bénard da Costa numa crónica sobre Joan Bennet. Lembras-te?
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Houve um tempo nos meus anos juvenis como cliente da Cinemateca, quando íamos todos ver os ciclos dos cineastas favoritos de João Bénard da Costa e que depois passaram a ser os nossos cineastas favoritos, em que decidi sem pensar muito que o meu gosto em cinema só podia ser o gosto dele.

Os filmes que João Bénard da Costa elogiasse, eu tinha que os ir ver. E muitos fui ver, na verdade, por causa dele, exclusivamente por causa dele. "A Palavra", de Dreyer, "O Fantasma Apaixonado", de Mankiewicz, "O Carteirista", de Bresson, três entre tantos de uma vasta galeria made in João Bénard da Costa. E não era isso que ele queria? Que fôssemos ver os filmes dele e que, de preferência, víssemos tudo o que ele visse, com o mesmo fervor suspeito? Ainda hoje tenho pilhas das fichas que ele escreveu sobre esses e outros filmes projectados na Cinemateca e que eram mais que apresentações ou meras críticas de cinema. Aquelas folhas transportavam a vida inteira de um homem esventrado e sacudido por uma paixão. É a única coisa que eu peço a um crítico e pode ser de filmes ou de livros, não importa: que me ofereça um gosto e uma admiração estética reconhecíveis, dentro das quais eu também possa caber quando o leio.

Um crítico que nos inculque essa marca própria sem complexos de objectividade, sem pretensões de academismo, que fale dos filmes não só como os filmes são mas como foram para ele, como ele os viu ou pensou. E que no fim de tudo nos ensine a gostar, sim, porque o gosto não se ensina, não se pode aprender. Não sei se posso usar o "nós" nesta ocasião - o "nós" é um direito que se ganha e eu nunca ganhei esse direito -, mas creio que Bénard da Costa nos fez a todos um pouco isso. Criou e moldou a nossa relação com o cinema. Foi um educador verdadeiro, um crítico na melhor acepção que pode haver do crítico: alguém que mergulha de chapa na arte e extrai de lá uma selecção extremamente pessoal e intransmissível, ao ponto de vida e arte se tornarem depois indistinguíveis.

Porque Bénard da Costa era de tal maneira entusiasta e homérico a falar e a escrever sobre os filmes da vida dele e sobre os seus filmes da vida (esta variação é de sua autoria) que era impossível uma pessoa não acabar cinéfila depois disso. Só que um cinéfilo, à boa maneira de Bénard da Costa, não era nem um espectador desatento e opaco, nem um conspirador contra o gosto alheio. Era alguém que cultivava exemplarmente aquilo a que ele chamou paixão crítica, duas palavras que para Bénard da Costa nunca foram contraditórias.

Há um texto incluído no primeiro volume de "Os Filmes da Minha Vida" ou "Os Meus Filmes da Vida" em que Bénard da Costa separa os críticos dos outros "críticos" como ele assumiu sempre que quis ser. Os críticos sem aspas seriam especialistas em maneirismos e barroquices, todos cheios de prosápia e referências, "jornalistas culturais" que, como ele dizia, "normalmente nem eram jornalistas nem cultos". Já os críticos aspados faziam tudo o que Bénard conseguia na perfeição: ensinar o gosto, fundar uma experiência. Ele mesmo o definiu em palavras mais belas que aquelas de que sou aqui capaz: "A formação do gosto de quem eu quero que goste tanto como eu gosto e que, se possível, goste como eu gosto." Façam o favor de ler isto outra vez.

Depois havia outras tantas virtudes que seduziam em Bénard da Costa - ele foi, antes de mais, um sedutor público como já não há muitos, além de um prosador perfeito.

Era capaz de terminar uma dessas prosas críticas que escrevia tão bem, informadas pela subjectividade e informação na quantia certa, e terminar dirigindo uma pergunta a outra pessoa que nenhum de nós sabia quem era, mas que naquele momento não nos parecia assim muito estranha porque até podíamos ser nós. Como numa crónica em que ele se lamenta por não ter perguntado a Joan Bennett, de quem gosto tanto, se ela não viria a Lisboa nem por um milhão de dólares. E a acabar pergunta: "Estou sozinho diante das estrelas. Lembras-te disto?" Acho que sim.

João Bénard da Costa voltou muitas vezes aos filmes que o fizeram a ele e com que ele nos fez a nós. E à Arrábida que ele conhecia tão bem e que funcionou como a geografia solene e familiar dos seus textos; e a Ruy Belo, o poeta que os portugueses não quiseram (quem escreveu isto?), que também era da sua geração e do mesmo grupo de católicos vencidos mas não liquidados a quem Bénard dedicou um admirável memorial. Como ele disse dum filme, "passou tão depressa. Tão depressa que passou".

 

 



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