PRIMEIRO PLANO
Exorcizar o Mal
por Paulo Tunhas, Publicado em 07 de Abril de 2010
O entusiasmo anticatólico corrente é uma forma de exorcizar o Mal. Mas escolher bodes expiatórios não é aceitável
Há dias, interrogado sobre a questão da pedofilia na Igreja, D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas, censurou vivamente o encobrimento da coisa por algum clero (nomeadamente o americano) e declarou que, se soubesse de algum caso semelhante em Portugal - não sabia, mas se soubesse -, não hesitaria em denunciá-lo. Não duvido um só instante da veracidade das palavras de D. Januário nem da justeza dos seus sentimentos na matéria. Mas o que ele disse põe o dedo num ponto importante.
É que, como é óbvio, há certamente casos de pedofilia entre padres portugueses - como há entre engenheiros, professores, lavradores, jornalistas e carteiros -, mas a grande maioria escapa à atenção das instâncias superiores da Igreja, como escapou à de D. Januário. Não custa imaginar que o que vale para Portugal valha para o mundo em geral. Claro que o encobrimento do que se sabe é, além de censurável, criminoso. Mas, como Vasco Pulido Valente no outro dia notou, a Igreja, que tem certamente culpas distribuídas por vários cartórios, vem até manifestando, com Bento XVI, uma inusitada disponibilidade para admitir o facto e para o tornar público.
Dito isto, há dois pressupostos na base do argumentário desenvolvido por estes dias. O primeiro é que o Vaticano tem um conhecimento próximo do absoluto das acções de todos os membros da Igreja. O segundo é que a situação dos padres não só inclina à pedofilia, como quase a estimula. Com base nisto, e com mais alguns pozinhos, não é difícil extrair a imagem de uma Igreja que, como um todo, é agente militante do crime e que por esse crime praticamente se define. Esta conclusão, que deve habitar, por exemplo, a cabeça de Saramago, e que é legível no rosto e nas palavras de muitos manifestantes que se vêem na televisão, é evidentemente absurda.
Não só ambos os pressupostos necessitam de tantas cláusulas para ser eventualmente aceites que nessas cláusulas fatalmente se dissolvem, mas além disso, tomando como ponto de partida a muito legítima censura de um crime, a conclusão só pode ser obtida com a ajuda de um entusiasmo anticatólico que escapa por inteiro à racionalidade. E a irracionalidade não é nunca de aplaudir. É mais louvável reconhecer, como Platão, que "existe em cada um de nós uma espécie de desejo terrível, selvagem e sem leis, mesmo nos poucos de entre nós que parecem ser comedidos", e que "é nos sonhos que o facto se torna evidente". Em todos nós: não apenas na Santa Igreja Católica Apostólica Romana. E exigir a condenação daqueles que se comportam acordados como se comportam em sonho. Mas escolher bodes expiatórios para exorcizar o Mal não é aceitável.
Professor do Departamento de Filosofia da Universidade do Porto
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