Comissão de Ética
Pais do Amaral: TVI contribuiu para queda do governo de Santana Lopes
Publicado em 07 de Abril de 2010
Ex-presidente da Media Capital acusa José Eduardo Moniz e envolve Marcelo Rebelo de Sousa. "Não me interessa nada o que diz essa pessoa", reage Moniz
A TVI foi utilizada como "uma plataforma para derrubar o governo de Santana Lopes" em 2005. A acusação foi ontem feita pelo antigo presidente da Media Capital, Miguel Pais do Amaral, que diz não ter "dúvidas nenhumas" sobre quem liderou o processo: José Eduardo Moniz, na época director-geral da TVI. E o então comentador político da estação, Marcelo Rebelo de Sousa, também não passou à margem desse plano: "Os jornalistas farão as suas interpretações", resumiu o empresário, quando questionado sobre a saída polémica de Marcelo da TVI durante esse período.
As palavras de Pais do Amaral foram proferidas à saída da sua audição na comissão de Ética, Sociedade e Cultura, onde tinha assumido alguns desentendimentos com Moniz nos meses que antecederam a venda da Media Capital à Prisa. E quando os jornalistas lhe solicitaram que esclarecesse os motivos dos "problemas" que apontara, foi taxativo: "Houve um período em que a TVI tomou posições que se desviaram de uma linha de isenção. Durante o governo de Pedro Santana Lopes [a TVI] contribuiu para a sua queda."
Pais do Amaral admitiu, de resto, que essa orientação da linha editorial da TVI motivou uma conversa entre o então presidente da estação e o seu director-geral. "Chamei-lhe a atenção: uma estação de televisão não existe para derrubar governos, mas sim para prestar informação credível", explicou, confirmando que esse período "coincidiu" com a fase que antecedeu a saída de Marcelo.
Santana Lopes e Marcelo não estiveram disponíveis para comentar as declarações de Pais do Amaral. Já Moniz foi contundente na reacção: "Não me interessa para nada o que diz essa pessoa, que, por sinal, mal conhecia uma televisão que foi propriedade sua", afirmou à Lusa.
Antes destas críticas de Moniz, o antigo presidente da Media Capital já tinha rotulado de "ridículas" as suas acusações sobre o alegado condicionamento que teria feito à linha editorial da estação. Além de invocar o seu passado como fundador, gestor e presidente de vários meios de comunicação, "sem que alguém diga que houve tentativas de limitar a liberdade de informar", o empresário socorreu-se da ironia para responder à acusação de que teria praticado "atitudes subterrâneas" antes de deixar a TVI: "Esse conselho de administração foi o responsável por transformar uma empresa falida num empresa com um EBITA de mais de 50 milhões de euros. Se isso são atitudes subterrâneas, então eu quero fazer parte de muitos conselhos de administração subterrâneos", disse perante os deputados.
A relação tensa com Moniz e Moura Guedes foi, de resto, contextualizada por Pais do Amaral durante a sua audição na comissão de Ética. Na base da polémica que se arrasta há cinco anos terá estado uma convicção do então dono da TVI: a manutenção de Moura Guedes como apresentadora dos noticiários "desvalorizava a TVI".
Ou seja, a decisão que em 2005 a jornalista interpretou como um saneamento político para facilitar a entrada do novo accionista - o grupo Prisa - é justificada por Pais do Amaral como uma decisão empresarial. Isto porque, explicou, depois da "ascensão meteórica" nas audiências do canal, Pais do Amaral entendeu que o cariz informativo deveria ser alterado. Ou seja, se até 2005 a informação da TVI "era tablóide, mais agressiva, populista e sensacionalista", quando a estação assumiu a liderança "não precisava de o ser tanto". A consultora McKinzie terá então feito um estudo que comprovou essa teoria. "Se ela saísse era um valor acrescentado para a TVI. Não escondo que tentei que isso acontecesse, não por motivação política, mas porque uma empresa líder vale mais sem informação tablóide", defendeu Pais do Amaral.
As alusões a supostos favorecimentos entre o grupo Prisa e o governo PS foram depois desvalorizadas pelo empresário, que defendeu que "o maior grupo de media da Península Ibérica" e o proprietário de activos como o "El País" ou o "Le Monde", "não é propriamente uma empresa qualquer, que se deixa pressionar ou influenciar por um governo por dá cá aquela palha". Um elogio que diz ser feito com base no conhecimento que tem acerca da empresa a quem vendeu a sua participação na Media Capital, em 2005.
Um conhecimento que justifica agora o interesse em regressar à empresa com uma participação minoritária. E embora a posição de 30% lhe assegure um lugar no conselho de administração, Pais do Amaral rejeita antecipar polémicas sobre a manutenção de Moura Guedes na TVI. "Mantenho apenas o que disse sobre o seu estilo de informação em 2005", resumiu.
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