Concerto
Tudo o que precisa de saber para entender os Tokio Hotel - vídeo
por Luís Leal Miranda, Publicado em 07 de Abril de 2010
Idolatrados pelos adolescentes, estes alemães deixam os adultos intrigados
Hoje é dia de Tokio Hotel. Ao longo de mais de uma semana, centenas de fãs acamparam no Parque das Nações, comeram MacDonalds ao pequeno-almoço, mentiram aos pais e dormiram em cima de pedras da calçada. Mas quando forem 22h00, o Pavilhão Atlântico vai estar às moscas. Não é por causa da polícia, que se tem empenhado a desfazer o parque de campismo ilegal; ou das fãs, que se podem envolver numa luta fratricida pelos lugares da frente até à extinção total. O concerto começa às 19h30 e pelas 22h00 só sobra a poeira levantada pelo quarteto alemão. As horas dizem muito sobre o público do concerto: jovens ainda no lado de lá da puberdade, que têm hora para chegar a casa e dependem de uma mesada.
Pelo Pavilhão Atlântico vão passar os dois gémeos univitelinos mais famosos da actualidade, Bill e Tom Kaulitz, para apresentar uma superprodução de "Humanoid", terceiro disco. Se o sucesso da banda o intriga ou assusta, veja todas as suas perguntas respondidas nestas páginas.
01 Quem são os Tokio Hotel?
Um grupo de teen-pop-gótico formado por quatro adolescentes alemães que conquistou a Europa e ajudou a recuperar a indústria do gel para o cabelo. Venceram dois prémios MTV e já venderam mais de cinco milhões de discos em todo o mundo.
02 Que tipo de música tocam?
Os fãs e alguma imprensa gostam do rótulo "emo". O termo é usado para designar um estilo de música pesado, mas melódico, com letras a apelar à aceleração do ritmo cardíaco ou à utilização do canal lacrimal. Os "emos" também podem ser tribos urbanas de filhos de pais divorciados que andam com os pés para dentro, pintam os olhos e vestem de preto. Os Tokio Hotel encaixam nesta descrição, mas são uma banda pop. Porquê? Porque enchem estádios, vendem refrigerantes e são patrocinados por marcas de roupa. A música é pesada, sim, mas só o suficiente para irritar os pais nascidos antes dos anos 70. E depois há a imagem: um crescendo de efeminização (do vocalista) e teatralidade tornam-na mais ruidosa do que qualquer solo de guitarra - que, já agora, são poucos e maus. E quando a forma se sobrepõe ao conteúdo, faz-se "pop". Música pop para as massas.
03 De onde vêm estes tipos?
Resposta geograficamente correcta: da cidade de Magdeburgo, na Alemanha. Resposta anatomicamente correcta: são uma mistura do visual gótico dos Sisters Of Mercy, a androginia angustiada dos Placebo, o exibicionismo datado dos Mötley Crüe num corpo de adolescente com idade para estar preocupado entre escolher o Agrupamento I ou II, mas passa uma hora por dia a maquilhar-se.
A história dos Tokio Hotel reza assim: formaram-se em 2001 quando Bill, o vocalista, tinha apenas 12 anos. O homem do penteado mais enigmático da pop - sugestão de dueto: Lady Gaga - participou num programa de talentos chamado "Star Search", na Alemanha, e chamou a atenção de um produtor em Hamburgo. A partir de 2004 a sua imagem foi trabalhada e afinada ao pormenor. Surgiam os Tokio Hotel e "Durch den Monsun" o primeiro single de sucesso e grande impulsionador de aulas particulares de alemão um pouco por toda a Europa. Depois do segundo disco, "Zimmer 483" lançado em 2007, o grupo fez uma versão dessas canções em inglês. E conquistou o planeta.
04 Por que razão há uma multidão de fãs acampados à porta do Pavilhão Atlântico?
Porque são férias da Páscoa. Os bilhetes para os Tokio Hotel esgotaram poucas semanas depois de terem sido postos à venda, ainda em Outubro, por isso a fila não serve para garantir um lugar no concerto - mas sim um lugar à frente. Ao escolher a porta do Pavilhão Atlântico em que estão acampados, os fãs estão também a seleccionar junto de que músicos querem ficar: o baixista Georg Listing, no topo sul; Tom Kaulitz, guitarrista, topo norte. Da última vez que a banda alemã esteve em Portugal, em 2008, a situação foi semelhante. Mas a 16 de Março já havia TPC para entregar, por isso o campismo foi uma opção menos popular.
05 Esta histeria só existe em Portugal?
Trata-se de um fenómeno global, como as pandemias ou o tuning. Ontem, a imprensa espanhola falava da "loucura em Barcelona" e mostrava centenas de jovens acampados à porta do Palau Sant Jordi, em Barcelona. O concerto de hoje no Pavilhão Atlântico faz parte de uma digressão europeia que os leva por 19 países em 32 concertos.
06 Tenho mais de 20 anos e não conheço a banda, devo ir hoje ao Pavilhão Atlântico?
Sim, se estiver a fazer um estudo sobre adolescência, fanatismo, idolatria, histeria colectiva e maus penteados. Com mais de 20 e sem ter como desculpa uma tese de licenciatura, torna-se difícil justificar a presença num concerto destes. Outras pessoas que podem sentir-se sozinhas entre a multidão de fãs: os homens. Os quatro rapazes alemães têm uma base de fãs que os imita em tudo, menos no género.
07 Que tenho de fazer para compreender o sucesso desta banda?
Ter 15 anos. Se isso já não for possível, então basta olhar para as bandas que idolatrava com essa idade e encontrar pontos em comum (ver caixa): uma rebeldia sob controlo, a ideia de que o mundo lá fora está contra nós e que o amor existe - mas na verdade não quer nada connosco.
08 O vocalista é mesmo um rapaz?
Se pensou que era uma mulher, não foi o primeiro a enganar- -se. Bill Kaulitz até tem em palco um irmão gémeo, o guitarrista Tom, mas o look andrógino tão apreciado pelas fãs - "hei, um homem disposto a gastar mais dinheiro que eu em maquilhagem, estou apaixonada" - é motivo de chacota para outros adolescentes em guerra com o sucesso da banda. Pela internet circulam centenas de paródias, vídeos, montagens e rumores sobre a sexualidade de Bill. As fãs defendem-no com agressividade e até apreciam o facto de não lhe conhecerem quaisquer namoradas. Poupam nos ciúmes.
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