Literatura
Lost Booker Prize. Os livros esquecidos há 40 anos
por Clara Silva, Publicado em 06 de Abril de 2010
Uma mudança de datas do prémio literário fez com que a ficção de 1970 fosse ignorada. Em Maio é conhecido o vencedor da votação
Nina Bawden teve a reacção mais surpreendente de todos os escritores nomeados ao Booker Prize: "Achava que conhecia os meus livros de trás para a frente, mas não me consigo sequer lembrar do tema deste", disse ao jornal "The Times" na quinta-feira passada. A escritora de 85 anos referia-se ao seu livro "The Birds on The Trees", um dos seis finalistas na corrida ao mais importante prémio literário da língua inglesa. Tem desculpa para não se lembrar. O romance foi publicado em 1970, o ano em que o júri do Booker Prize se esqueceu de escolher os melhores livros e atribuir o prémio.
Mais vale tarde do que nunca. A 26 de Março de 2010, a lista dos seis livros nomeados ao Lost Booker Prize - anunciado a 16 de Maio - era revelada com quarenta anos de atraso: "The Birds on The Trees", de Nina Bawden, "Troubles", de J.G. Farrell, "The Bay of Noon", de Shirley Hazzard, "Fire From Heaven", de Mary Renault, " The Driver's Seat", de Muriel Spark e "The Vivisector", de Patrick White.
Dos escritores nomeados, só Nina Bawden e Shirley Hazzard, de 79 anos, souberam da notícia: são as únicas que ainda estão vivas. O escritor australiano Patrick White pode agora, quase 20 anos depois da sua morte, ser contemplado à força com o prémio que tanto detestava. Em 1979 ordenou que o seu nome fosse eliminado da lista de nomeados ao Booker Prize. "Ele era daqueles escritores como o John Le Carré que diziam: 'Não preciso de prémios, dêem-no a alguém que precise'", comentou Tobias Hill, um dos júris do Lost Booker Prize. Além do poeta, o júri é constituído pela jornalista e crítica literária Rachel Cooke e por Katie Derham, pivô do canal ITN .
O buraco do Booker
Foi Peter Strauss, arquivista do Booker, quem descobriu que havia um buraco na história do prémio. Criado em 1968 com o nome Booker-McConnell Prize, começou por distinguir em Abril o melhor livro do ano anterior. Em 1971, a organização decidiu alterar as regras: os livros avaliados seriam apenas os publicados nesse ano e o prémio passaria a ser entregue em Novembro. Com a mudança, a ficção de 1970 ficou esquecida, mas não para sempre.
Os três membros do júri tiveram a difícil tarefa de pegar em 21 livros empoeirados e escolher seis finalistas. A jornalista Rachel Cook ficou surpreendida com o que leu. "Numa entrevista, o Ian McEwan descreveu os romances do final dos anos 60 e princípio dos anos 70 como ajuizados e um pouco aborrecidos", escreveu no "The Guardian". "Acabei de ler 21, todos publicados em 1970, e enquanto alguns podem ser considerados ajuizados, nenhum deles é aborrecido". No mesmo artigo, conta também que leu "The Hand-Reared Boy", de Brian Aldiss, com a porta do escritório trancada. "Tão obsceno que tive medo de ser apanhada", escreveu.
Rachel já elegeu o seu livro favorito de 1970: "Troubles", de J.G. Farrell, escritor já galardoado com um Booker. Mas a decisão não é só dela. Ao contrário de todos livros premiados , o vencedor do Lost Booker Prizer será encontrado online. Até 23 de Abril, qualquer um pode ajudar a organização a redimir-se do seu erro e votar no seu "livro perdido" em www.themanbookerprize.com.
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