Ensino de línguas estrangeiras

Habla conmigo. Espanhol conquista estudantes portugueses

Publicado em 05 de Abril de 2010   
O Francês caiu 35%. E, em quatro anos, o Espanhol conquistou mais de 42 mil novos alunos
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Se o ensino das línguas estrangeiras nas escolas públicas portuguesas fosse uma competição, o desafio não estaria em saber quem fica com o primeiro lugar. A esmagadora maioria dos alunos prefere o Inglês. Sempre foi assim e assim tende a continuar. O campeonato joga-se um patamar abaixo. Há décadas que o segundo lugar pertence ao Francês, mas ao ritmo que o Espanhol avança, o jogo pode virar a qualquer momento. Em quatro anos, a preferência dos estudantes pelo espanhol subiu 400%.

Há cada vez mais alunos a optar pela língua que os nossos vizinhos falam e cada vez mais alunos a desistir do Francês. No ano lectivo de 2005/06 havia 9906 crianças e adolescentes do ensino básico e secundário a aprender o castelhano. Em 2010 há cinco vezes mais: 52 274 alunos. A subida acontece em todos os níveis do ensino, mas é vertiginosa no 3.º ciclo: de 7 151 alunos que em 2006 frequentavam o 7º, 8º e 9º ano de escolaridade, passaram a ser 37 607 alunos.

A disciplina de Francês, em contrapartida, perde terreno todos os anos. Entre 2006 e 2010, a quebra dos alunos nas escolas públicas foi de 35%: se a língua castelhana ganhou em quatro anos mais de 42 mil alunos, a francesa deixou fugir mais de 136 mil estudantes. As perdas foram mais significativas no ensino secundário - de 178 942 para 15 171 alunos.

A língua francesa, porém, ainda se mantém na segunda posição com mais de 244 mil alunos, mas será difícil segurar o seu lugar nos próximos anos. Até porque está a competir com um rival que entrou no sistema de ensino português há pouco mais de dez anos. "O castelhano chegou tarde às escolas portuguesas mas galopa a grande velocidade", diz José Bual, da Associação Portuguesa dos Professores de Espanhol.

Proximidade linguística, geográfica e cultural explicam em parte esta subida, mas são sobretudo as oportunidades que a língua oferece no mercado de trabalho que mais atraem os alunos portugueses, defende o professor de espanhol: "O castelhano tem vindo a impor-se na economia internacional e há uma crescente noção, tanto dos jovens como dos seus pais, que se trata de uma mais-valia nos currículos."

Perante a força do Espanhol nas escolas portuguesas, Cristina Avelino, dirigente da Associação Portuguesa de Professores de Francês, tem poucas alternativas senão reconhecer que "a realidade do ensino das línguas mudou em Portugal". E não existe apenas um motivo para isso: "A partir do momento em que o sistema se abriu a mais línguas, é natural que o Francês tenha uma quebra."

Uma das principais razões para o entusiasmo dos alunos portugueses pelo castelhano passa pela possibilidade que a língua oferece em subir a nota final para entrar nas universidades: "A média da prova tem-se mantido constante entre os 14 e 15 valores e isso é um chamariz para quem quer seguir o ensino superior." E é de facto no nível secundário que o ensino do Espanhol, com 14 450 alunos, está a um passo de ultrapassar o Francês, com 15 171 estudantes.

Afastada desta competição está o ensino do Alemão, a língua estrangeira que os alunos portugueses menos escolhem e que nos últimos quatro anos perdeu cerca de 600 alunos. O Alemão, no entanto, nunca jogou na primeira divisão, apesar de fazer parte do sistema de ensino desde os anos 20 do século passado. "A língua alemã manteve-se sempre como uma opção de elites com oferta em poucas escolas, como é o caso da Escola Secundária Pedro Nunes, em Lisboa, que ainda hoje mantém essa tradição", conta Cristina Avelino.

O ensino do inglês mantém-se no topo das preferências dos alunos do básico e do secundário: 961 mil estudantes estão a aprender a língua, mais 3 788 do que há quatro anos. Mas no alto do pódio também há problemas, alerta Alberto Gaspar, presidente da Associação Portuguesa de Professores de Inglês. Desde 2005 que esta é a língua estrangeira com a qual as crianças do 1º ciclo têm o primeiro contacto, mas sem carácter obrigatório.

A disciplina é leccionada a partir do 1º ano nas actividades de enriquecimento curricular, mas a decisão de as crianças frequentarem esta cadeira depende apenas da vontade dos pais e encarregados de educação: "O facto de a disciplina ser facultativa origina um enorme desequilíbrio de conhecimentos e de aprendizagem à entrada do 2º ciclo, fase em que a língua estrangeira passa a integrar o currículo obrigatório."

De um lado estão as crianças que nos últimos quatro anos aprenderam as primeiras noções da língua e, do outro, os que nunca tiveram contacto com esta disciplina: "Essa disparidade dentro de uma mesma turma não faz qualquer sentido e pode provocar graves problemas na aprendizagem dos alunos", adverte Alberto Gaspar.


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