Roger Milla. "O Valderrama ensinou-me a roubar a bola ao Higuita"
por Rui Miguel Tovar, Publicado em 03 de Abril de 2010
Há 20 anos o avançado dos Camarões recebeu um telefonema do presidente do seu país. Que mudou a sua vida. E a nossa
Tem idade para ser meu pai e até me trata por "mon fils" (meu filho) no arranque de quase todas as frases. Aos 57 anos, tem uma paciência de santo para as perguntas do i, é o pai da selecção dos Camarões mas já não samba junto à bandeirola de canto como em 1990, o ano da sua consagração, com quatro golos no Mundial de Itália. Pois é, há 20 anos, debaixo de um calor infernal, os portugueses curtiram esse Verão ao ritmo dos festejos de olhos esbugalhados do italiano Toto Schillaci, das impressionantes cavalgadas do inglês Paul Gascoigne e das danças envolventes de Roger Milla, o homem de quem falamos. E que entrevistámos, sempre numa galhofa pegada. É caso para dizer que não há pai para ele.
Pelo telefone, a sua voz emana simpatia por todos os lados e é ele que fica mais curioso por saber que do outro lado da linha está um português. E eu quase fico sem resposta para as suas perguntas. Sobre Portugal, sobre os portugueses e sobre Eusébio. A ideia era entrevistá-lo mas ele deu-me a volta e a conversa começa num registo absolutamente felliniano.
Boa tarde, sr. Milla. Falo de Portugal...
Mon fils, podes ligar-me daqui a cinco minutos. Cinco minutos. Conta aí no teu relógio, se faz favor.
Nesses cinco minutos, entretenho-me a rever Milla nos Mundiais 1982 (três jogos/zero golos), 1990 (5/4) e 1994 (2/1), no YouTube. São imagens verdadeiramente inspiradoras, sobretudo as de 1990, quando os Camarões estavam fritos (de tramados) e passaram no grupo da morte, com Argentina (campeã mundial), URSS (vice-campeã europeia) e Roménia. Nos oitavos-de-final, eram camarões na chapa e a Colômbia é que pagou as favas. Nos quartos, a Inglaterra cozinhou os camarões e o Mundial perdeu todo o encanto em prol do futebol burocrático dos quatro semifinalistas (Argentina, RFA, Itália e Inglaterra). Bem, já passaram os cinco minutos.
Boa tarde, sr. Milla
Então, tudo bem? É de Portugal, não é?
Pois, de Lisboa.
Ah, muito bem. Da capital. O Eusébio está bom?
Está em forma. Vai ser homenageado pela UEFA.
Muito bem. Fantástico. Por ele, por Portugal e também por África. Ele nasceu cá, como o Fontaine [melhor marcador do Mundial-58 com 13 golos, em representação da França, embora o avançado tenha nascido em Marrocos]. São duas figuras africanas. E mundiais.
No duplo sentido. De ícones globais e de estrelas em Mundiais, como o sr. Milla.
Esqueça lá o senhor, estamos aqui a falar à vontade.
Pronto, OK. O Milla é também uma figura mundial, à imagem de Fontaine e Eusébio. Foi eleito o melhor africano do século XX e tem um currículo impressionante nos Mundiais.
Qual era a sua idade no meu primeiro Mundial, em 1982?
Cinco.
[risos] Portanto [faz as contas em voz alta, 5+8], tinha 13 em 1990. Nessa altura já se lembra de tudo, não é? Nós, quando somos mais novos, retemos tudo o que nos rodeia, tudo o que vemos na rua, na televisão, na nossa casa, na escola. Tenho algumas imagens minhas com quatro, cinco anos. Daquela adrenalina de ir à escola, jogar à bola, conviver com outros rapazes. É incrível mas sabe porque é que eu sambava na bandeirola nos festejos dos golos?
Não, mas diga-me já, se faz favor.
Eh, eh, calma. Também não é assim um segredo tão secreto [ri-se que nem um perdido]. Nos anos 60, quando eu tinha dez, 11 anos, o Santos do Pelé fez alguns, poucos, jogos de exibição nos Camarões e você nem imagina a magia daquela magia, daquele Pelé. Qualquer pessoa virava jogador de futebol depois de os ver em acção. Eram uma maravilha. Como essa experiência me marcou, quis homenagear o futebol brasileiro, por influência desse Santos do Pelé, em cada golo que marcava. Deu-me cá um gozo!
Pronto, segredo desfeito. Agora, outro: porque razão lhe anularam um golo em 1982?
Boa pergunta. Para isso não tenho resposta. Pareceu-me um golo limpo [ao Peru, num jogo que acabou 0-0], mas pronto.
E depois só reapareceu em 1990. Mas já tinha 37 anos. Sentia-se em condições?
Ai, ai, lá vou eu revelar-lhe mais um segredo. Já me deve dois, hein?! Quando for aí a Portugal, vou cobrar.
À vontade.
Em 1990 já estava como que reformado. Jogava no JS Saint-Pierroise, nas ilhas Reunião. Naquela altura África só qualificava duas selecções. Fomos nós e o Egipto. Eu julgava-me fora, não esperava nada, nem em sonhos. Até que, no início de Abril, acho que a 3 ou 4, Paul Biya, presidente dos Camarões [ainda hoje a desempenhar a função que iniciou a 6 de Novembro de 1982!], me ligou, como você está a fazer agora comigo. Ele é um grande amigo de infância, dos tais tempos em que me recordo vagamente dos jogos de futebol na rua e na escola. E pediu-me para voltar à selecção. Assim sem mais nem menos. E não era 1 de Abril. Nem me lembro das sensações que tive. Medo, apreensão, alegria, euforia... Sei lá. Aceitei.
E pronto, não é bem assim. E pronto, e toma lá quatro golos!
Mon fils, calma! Ainda não cheguei a essa parte da história. Depois do "sim" ao meu amigo e também presidente dos Camarões, falei com o seleccionador que era um soviético chamado... tem aí papel e caneta, porque é melhor apontar que este nome é comprido... Valeri Nepomnyashchi. A táctica era entrar na segunda parte, porque a pedalada já não era muita. E assim foi. Entrei com a Argentina para defender o 1-0, numa altura em que já estávamos a jogar com dez [expulsão de Kana Biyik aos 61', antes do golo do irmão Omam Biyik] mas parecíamos 20.
Seguiu-se a Roménia...
Pois foi. Aí, marquei dois golos e ganhámos 2-1.
E depois mais dois à Colômbia...
Entre Roménia e Colômbia, houve ainda URSS. Como já estávamos qualificados para os oitavos-de-final, entrámos descontraídos em campo e apanhámos 4-0. Quando entrei, ainda na primeira parte, já havia 2-0. Só depois é que veio a Colômbia.
Com aquele delicioso golo a roubar a bola a Higuita.
E sabe quem me ensinou o truque? Se adivinhar, não cobro os favores antigos. Se falhar, passa a três segredos...
Higuita?
Como se chama?
Eu?
Sim, você!
Rui Miguel Tovar.
Ok, Rui. Quando for a Portugal, deve-me três favores. Fique esperto [gargalhadas sonoras]. Foi o Valderrama [capitão da Colômbia nesse Mundial-90] que me avisou. Em 1988-89, nós jogámos juntos no Montpellier, em França, e até fomos eliminados pelo Benfica na 1.a eliminatória da Taça UEFA [0-3 em Montpellier e 1-3 na Luz]. Nessa época ele alertou-me para esse facto e até me mostrou um vídeo em que o Higuita saiu da baliza a fintar um avançado. Disse-me que ele gostava de sair com a bola jogável. Dois anos depois dessa lição, quando vi a bola nos pés de Higuita e ele com todo o espaço do mundo para sair a jogar, atirei-me a ele. Ele tentou fintar-me mas eu fui mais rato. Roubei-lhe a bola e corri isolado com a baliza aberta.
E a rir-se, porque imagem é imperdível.
A rir-me de tudo aquilo. Do vídeo que o Valderrama me mostrou e da jogada ter sido tão perfeita, tão perfeita como se fosse um sonho transformado em realidade. E foi.
A Inglaterra é que já não foi um sonho.
Em certa medida, um dia teríamos de perder. Ninguém é imbatível. Deve ter sido dos melhores jogos desse Mundial. Saí feliz porque parecia que tínhamos conquistado o apoio e a admiração de todo o mundo. Isso é uma experiência que marca. Ainda estivemos a ganhar 2-1, mas perdemos no prolongamento por 3-2. Dois golos do Lineker de penálti. Mas foi o Gascoigne quem me captou a atenção. O que ele correu e o que ele jogou naqueles 120 minutos! Foi ele que nos arruinou com aqueles vaivéns constantes. E essa imagem não é um exclusivo meu. Há muitos camaroneses que ainda hoje me falam dele. Todos nós lhe desejamos as melhoras, que ultrapasse estes problemas de álcool.
E chegámos ao fim da linha. Ao Mundial-94.
Nessa altura já jogava nos Camarões, no Canon Yaoundé. E fui ao meu terceiro Mundial.
E marcou mais um golo, que é recorde.
Um golo aos 42 anos. É muita fruta, não é? Mon fils, fiquei tão contente que festejei esse golo, que foi o 1-3 com a Rússia [acabou 1-6, com cinco golos de Salenko, outro recorde em fases finais de Mundiais], como se fosse o do título de campeão mundial.
Samba na bandeirola?
Ah pois claro, mas então?! Se sou bom dançarino, devo mostrá-lo ao mundo.
Acho bem. Eu gostei. Mas estava cheio de sono. Esse jogo foi o da meia-noite em Portugal [16h00 em São Francisco, nos EUA].
Pois foi. Foi o jogo da tarde, e não o da hora de almoço. Bem, agora fiquei surpreendido. Passa a dois favores.
Pago eu. Quando for a Yaoundé, um dia...
É bem-vindo. Mas não marque só 15 dias. Para experimentar todos os pratos, são precisos meses. Vai gostar disto.
E qual é o seu prato preferido?
É N'dolé, uma espécie de espinafres daqui dos Camarões.
E a acompanhar?
Sumos de frutas. Aos montes. Nunca gostei de cerveja, whisky ou coisa parecida.
É o segredo do seu sucesso?
Não vamos entrar outra vez na parte dos segredos, se não nunca vou a Portugal e você nunca virá cá. Abraço.
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Artigo: Roger Milla. "O Valderrama ensinou-me a roubar a bola ao Higuita"
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